21.11.04

O Reinado do Rei Rádio

O relato da vida de muitos começa pelo começo. O de Brás Cubas, pelo final. O de minha família há mais de século. O meu começa no instante em que os dedos engordurados de Manuela me retiraram da mala.

Estava abafado e escuro, balançava e cheirava a comida estragada, mas como eu gostava! Poderia afirmar que naquele momento fui "parido", mas minha nobreza não permite. Num ímpeto de arrogância e insulto e impertinência e ignorância e, novamente, arrogância, Manuela me acorda e me põe para trabalhar. Eu, o rei. Eu, o rádio.

A história de minha família é engraçada. Engraçada, pois ninguém a conta corretamente. Omitem fatos importantes, mas Ninguém sabe, e eu também, que ainda estariam, todos, no século XIX se não fosse por nosso nascimento. O século só virou por nossa causa! Datava 1900 e nascia o motor eterno da humanidade: meu avô! Vovô era o ancião da nossa família. Grande, robusto e amado. De tão amado virou rei. O rei do mundo da comunicação em massa. Não demorou muito e já reinava o planeta inteiro.

E, assim, foi seguido: conquistando súditos e evoluindo. Até que, de uma mala, eu vim ao mundo. Tão rei quanto ele, claro!

A mão suada girou a engrenagem me fazendo rir e, de uma hora para outra, eu estava funcionando. Esplendido! Entoando música clássica de qualidade! Violinos, muitos! A Primavera de Vivaldi. Eu transformando a viagem em momentos mágicos! Até que sinto cócega novamente e deixo a magnífica música clássica para entrar no... É até difícil falar sobre isso, mas deixei a música clássica para entrar no axé.

Como posso, eu, rei da comunicação moderna, permitir tal abuso? Isso é inaceitável, insuportável, inacreditável e, novamente, inaceitável! Senti-me profanado, arrasado, destroçado, esmigalhado, preferia a morte! Manuela, minha primeira namorada por dez segundo, trocou Vivaldi por "Alegria da Garotada" e me usou. Eu fui usado. Um rei usado. Já me sentia velho, toda a minha história, todo o meu futuro, todo o meu tudo foi jogado fora! E eu, que só funcionará por segundos, não pude aceitar a dura realidade.

E não aceitei!

Tanto não aceitei que preferi a morte. Queria me suicidar e foi isso que eu fiz. Morri! Arremessei-me no chão. Estava tudo acabado. Porém, como eu sou um amuleto natural da sorte, além de ser rei, fui parar no pé do homem que deu um emprego (e que emprego, diga-se de passagem) a Manuela. Isso há uns dez anos atrás.

E, hoje, imortalizado, quebrado, porém ainda "inteirão", fui posto na estante de velharia. Observo o ritmo da casa com ar soberano. Exposição eterna da minha grande beleza. Eu, a obra de arte. Manuela, toda a quinta, tira-me o pó com um beijo de obrigado.

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