29.3.07

Guerra na Grande Cidade

De tempos em tempos ouviam-se nítidos os tiros das armas, o povo já estava acostumado com o novo código das ruas. Lembravam meus avós um tempo de paz, mas eu não mentiria aos meus netos: mostrar-lhes-ia a verdade, mostrar-lhes-ia o tempo de guerra. E como não existiam outras opções, era assim que se vivia na Grande Cidade, degradada. Miserável.

A guerra daquele tempo não era na porta de casa, mas tornou-se. A situação estava difícil: crise politico-econômica, desigualdade social, problemas com um passado mal resolvido. Humilhação e vergonha. Falta de educação. Nascia deste caldeirão a combinação ideal. Como era para ser, assim foi: a população desnutrida organizava-se num estado paralelo e eu assistia a tudo de minha varanda. No início assaltaram meu primo, depois um alto executivo. De repente, Bum! Levantes em presídio, incêndios criminosos, uma mulher passou gritando pelo pátio da ilegalidade. Estava instalado o caos.

Manchetes vermelhas no jornal. Assalto ao jornal. Controle do jornal. Estávamos perdidos! Dos bueiros da Grande Cidade brotavam meninos armados e toda população outrora oprimida, agora pegou em armas. Intifada? Revolução? Pá-pá! Dois tiros. Está morto. E os homens e suas gravatas já estavam de mãos atadas no grande cativeiro da Grande Cidade. Foi nesta época que o exército foi chamado. Eu ouvi as primeiras sirenes e os últimos helicópteros. O Estado entrava na luta, literalmente.

Cada metro, cada rua, cada casa foi disputada a tiros de metralhadora. Um acertou minha porta. Meses de luta e toque de recolher. Pouco a pouco o Estado ganhava a batalha, mas nunca fora fácil. Desenvolveram-se nos becos as guerrilhas urbanas, novas armas velozes, gases venenosos, minas aéreas, chips de computador. Cortaram a televisão! Assim lutou-se até o último suspiro, que se deu no alto do morro.

O Estado ganhara e a cidade, destruída, ainda tinha poucas construções, a maior parte da minha casa, inclusive. Vencedor, o Estado da Grande Cidade colocou algumas normas para que os bueiros não mais se abrissem. Dormir cedo, acordar cedo, aula de reforço para a cidadania, linha de apoio ao controle mental, simulado de ataque terrorista toda a sexta. O Estado oficializava o terror e este não foi o único que vi.

Certo dia, pensei. Hoje a guerra continua, contra a máquina que nos salvou. Dizem que há um papel, assinado por vários homens, que garante a paz na Grande Cidade, mas nunca vi este papel pardo. No fim, sou otimista, não tenho dúvida que a paz reinará, mesmo que para isto se mate a última andorinha.

Vão demolir minha casa. Faz parte da nova ordem paisagística da Grande Cidade. Disse o algo que pensei, fui julgado e fuzilado do mesmo modo que fuzilaram a Grande Cidade.

30.mar.2005

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