O mundo barulhento já passava à porta da pequena casa de Domingues, mesmo nos idos de sua infância, em algum ano perdido de final de século XX. Engraçado era quando um mundo mais pesado passava e a casa toda tremia, num cai-não-cai. Na periferia da Grande Cidade, as crianças levam nos olhos sinais de esperança que vão se apagando com o passar do tempo.
- Mãe quem construiu este monte de estrada?
- Foram os homens, filho, os homens que aparecem, bem bonitos, na tevê.
Os homens da tevê... E por anos Domingues agradeceu orando pelos homens que deram a ele a vista da janela e a fumaça dos autos e o barulho da noite e até as batidas de sangue e de choro de de vez em quando. Como ele gostava deste mundo! Abria a janela e ria-se vendo caminhão passar.
Certo dia, era natal, sua mãe deu-lhe um trenzinho. Até brincou um pouco, mas logo o deixou de lado e voltou a seu posto, junto à janela. O mesmo ocorreu com a bola, a pipa e a arminha de pressão. Mas o que é que este menino tanto vê nesta janela? Deu-lhe, pois, um caminhão e nada poderia ser tão acertado. O caminhão vermelho tornou-se amigo inseparável em aventuras que só Domingues compreendia. Ele, que antes só possuia a sua velha estrada, agora também possuia as quatro rodas, uma caçamba e um baú para povoar seus sonhos.
- Tô com fome, mãe!
- Vai dormir, menino, vai dormir que a fome passa.
Nunca o caminhão, agora já sem uma roda, fora tão útil.
E o tempo passou. Os olhos de Domingues viam realidade. Seguiu seu sonho e agora era caminhoreiro profissional.
- O frete não dá nada, mãe, mas este foi o único emprego que consegui.
- Tudo bem. Deus ajuda. Faça boa viagem. Faça boa viagem.
Na cabine, a resmungar, desviava dos buracos. Ultrapassava e era ultrapassado em eternos momentos perigosos por entre as curvas da BR descuidada. O frete não dá pra nada... Sará que escolhi a coisa certa? Vai-vem-volta, balança, muda a marcha. Se eu não chegar até dia vinte, eles cortam meu couro. Será que mamãe tá bem? Um carro passou businando e o calor estava insuportável. Que calor dos infernos! Essas estradas... Que cheiro é esse?
Parou o caminhão no acostamento. Desceu para checar a carga. Os tomates estavam podres.
Sem ventilação, precário condicionamento, parte dos tomates, belos frutos, se perdera. Apodrecera. Tanta gente passando fome! Tanta comida que se perde! Tanta comida que se perde... Levou a mão ao rosto, resignado.
Domingues lembrou-se do tempo de criança e de seu caminhãozinho vermelho e dos dias que tinha que durmir sem janta e de sua janela, seu mundo.
Frete inútil. Tempo perdido. Os carros passavam velozes, tiravam uma fina do caminhão e seguiam. E seguiam. E seguiam até perderem-se no horizonte.
20.nov.2005
- Mãe quem construiu este monte de estrada?
- Foram os homens, filho, os homens que aparecem, bem bonitos, na tevê.
Os homens da tevê... E por anos Domingues agradeceu orando pelos homens que deram a ele a vista da janela e a fumaça dos autos e o barulho da noite e até as batidas de sangue e de choro de de vez em quando. Como ele gostava deste mundo! Abria a janela e ria-se vendo caminhão passar.
Certo dia, era natal, sua mãe deu-lhe um trenzinho. Até brincou um pouco, mas logo o deixou de lado e voltou a seu posto, junto à janela. O mesmo ocorreu com a bola, a pipa e a arminha de pressão. Mas o que é que este menino tanto vê nesta janela? Deu-lhe, pois, um caminhão e nada poderia ser tão acertado. O caminhão vermelho tornou-se amigo inseparável em aventuras que só Domingues compreendia. Ele, que antes só possuia a sua velha estrada, agora também possuia as quatro rodas, uma caçamba e um baú para povoar seus sonhos.
- Tô com fome, mãe!
- Vai dormir, menino, vai dormir que a fome passa.
Nunca o caminhão, agora já sem uma roda, fora tão útil.
E o tempo passou. Os olhos de Domingues viam realidade. Seguiu seu sonho e agora era caminhoreiro profissional.
- O frete não dá nada, mãe, mas este foi o único emprego que consegui.
- Tudo bem. Deus ajuda. Faça boa viagem. Faça boa viagem.
Na cabine, a resmungar, desviava dos buracos. Ultrapassava e era ultrapassado em eternos momentos perigosos por entre as curvas da BR descuidada. O frete não dá pra nada... Sará que escolhi a coisa certa? Vai-vem-volta, balança, muda a marcha. Se eu não chegar até dia vinte, eles cortam meu couro. Será que mamãe tá bem? Um carro passou businando e o calor estava insuportável. Que calor dos infernos! Essas estradas... Que cheiro é esse?
Parou o caminhão no acostamento. Desceu para checar a carga. Os tomates estavam podres.
Sem ventilação, precário condicionamento, parte dos tomates, belos frutos, se perdera. Apodrecera. Tanta gente passando fome! Tanta comida que se perde! Tanta comida que se perde... Levou a mão ao rosto, resignado.
Domingues lembrou-se do tempo de criança e de seu caminhãozinho vermelho e dos dias que tinha que durmir sem janta e de sua janela, seu mundo.
Frete inútil. Tempo perdido. Os carros passavam velozes, tiravam uma fina do caminhão e seguiam. E seguiam. E seguiam até perderem-se no horizonte.
20.nov.2005
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