Era o ano de 2006, o ano de todos-os-santos. Neste momento datavam agosto na Grande Cidade. Como sabiam? O céu dizia cinza e não-mais-que-cinza a todos que lhe levantavam os ólhos. Marcavam o tempo com a técnica de províncias desenvolvidas, talvez por isso parecesse-se que ele [o tempo] sempre estava na frente [na nossa frente]. Era alguma hora de depois-do-almoço, mas só sabiam disto os que já estavam de pança enchida.
Os mendigos não recebiam um centavo e depois de comprar aquela última aguardente (há três anos passados), nunca mais viram nem nota de um real. Os tempos estavam mudados, mas o vento frio da tarde ainda doía na pele.
Para ela, já passava do meio-dia desde muitos metros cúbicos.
Desviandando pelas possas d'água, a professorinha relembrava a olhos molhados aquela sua aula sempre-lembrável... Bons-tempos, bons-tempos...
As escolas da província do De-faz-de-conta, aquela que fica bem-alí, trespassando a província do Caqui-verdinho, sempre foram, certo-modo, especiais. Mas não aquele "especial" de "especial", mas o especial de um especial-mesmo, de remexer no fundo do peito ao lembrar, ao falar, como todas as outras escolas são, como todas as outras escolas nunca foram. A singela professorinha não seguia as linhas de pensamento Austríaco, muito menos tomou ciência, vez alguma em vida, dos sociólogos alemães que falavam em pós-modernidade, mas ensinava, sempre e de tal forma, que nunca pudera fazer melhor.
A classe estava como uma zona naquele hoje retomado da viva memória. Após esgoelante berro de-deixar-vermelha, ela pôs ordem pessoal no pessoal.
- Hoje a lição é simples.
Seria mais um dia normal. Mediocremente feliz e triste.
- Peguem uma folha de papel e completem a frase No almoço eu comi....
- Só isso, psora? No duro?
- Só isso sim. Mas no duro, não; no papel.
Eles pararam, hipnotizados, como se a sentença fosse senha mágica. Palavras cujo efeito fora muito além do esperado, até para a professorinha, que teve um minuto de calma, como nunca tivera antes. Via a classe, cabeças baixas, a fazer e a lembrar e a escrever e a criar. Não haviam (o que havia, havia; mas, no caso, não-haviam-mesmo) cadeiras, nem pernas, nem planadores de papel a cortar o espaço aéreo. Podia-se ver claro o reinado do silêncio. A poeira decantava-lentinha, espreguiçando-se sobre o chão vermelho.
Em que ano estavam as crianças? 3a série? 4a série? A única certeza que havia, e ainda com diversas ressalvas, é que estavam em 2006. As crianças não eram seres-super-dotados, tampouco tinham o germe do raciocínio lógico hipotético-dedutivo-empírico, ou talvez o tivessem, mas ninguém nunca nem não disse isso a elas. Queriam era escrever tudo certinho, pra modo de mostrar pra psora.
Rolavam boatos interestudantis que a menina é que era a mais inteligente, pois sabia todas as coisas do mundo de dentro e de fora.
- menina, como se diz: ólhos ou ôlhos, zóios ou zôios?
- Olhos.
- Quê?
- Olhos!
- U QUÊ?
- O-LHOS!
- Ôxi! Nem sei qué isso!
As dúvidas eram diversas, mas se resolviam antes de chagar à professora.
- Minha cêna tem acento.
- Pois a minha nem não tem: ficam todos de pé.
O que isso tem a ver com "No almoço eu comi..."? Ninguém sabia, mas Ninguém nem não contou a Qualquer Outra Pessoa (e Qualquer Outra Pessoa, o único que tinha nome, sobrenome e nome-do-meio, ficou muito-muito triste).
O primeiro trabalho a ser entregue foi um origame. Um origame dum prato de arroz e feijão que ao se apertar bem-lá, na cebolinha do arroz, dizia Hum! Comidinha-de-Mamãe é a melhor. Um origame falante. Éssa éra nova.
É por isso que, ainda surpresa, a professorinha, ao receber o segundo trabalho terminado, viu que já se formava fila de espera. E a fila ocorria pois todos queriam entregar em mãos os seus feitos, pra, quem sabe?, até arrancar um sorriso da psora, não é mesmo?
O segundo era um desenho de um prato de macarrão, com um macarrão. Sim, isto mesmo, um macarrão, não mais que um pequeno parafusinho de macarrão, preparado, como que servido dentro do prato desenhado. Tinha os dizeres Comi macarrão, mas não comi este macarrão, porque se eu tivesse comido este macarrão, ele estaria desenhado e não na sua mão. Ao levantar os olhos do papel, viu os dentes-sorrindo do pequeno, que, ao perceber seu objetivo alcançado, saiu correndo mais rápido que rojão.
A professorinha estufou os peitos pra dar um aviso-gritado, porém foi logo interrompida, com a visão de uma folha bem na cara.
- Ólhô-meu.
E ela viu. Viu. Olhou-olhou e nem não viu foi nada!
- Que isso? A folha está vazia!
- É... foi o que eu comi.
- (voz bem baixa) Você não comeu nada?
- (um sussurro no ouvido) Não.
Eis que irrompe outra voz.
- Êle me copiou! Êle me copiou.
Para variar, como sempre tinha de ser, o branquinho e o negrinho estavam a se estranhar. E foi só terminar de dizer o segundo copiou que rompeu a briga, numa maçaroca humana de crianças e sopapos, num aparta-piora. Puxão pela gola do colarinho. Sopapo na orelha.
- Páaaaaaaara!
Pararam.
- O que é que aconteceu?
- Eli me copiou porque eu entregueia a folha...
- Mas eu já tinha dito bem antes para...
- primeiro e então ele veio e disse que...
- a menina que tinha me dito aquela coisa que...
- a menina tinha dito que a idéia éra...
- o meu trabalho estava o mais bonito, bem mais bonito que...
- a do Jaiminho.
- o do Jaiminho.
- (juntos) do Jaiminho?
Olharam para ele, estava com o dedo no nariz. A professora intervém.
- Pó pára! Pó pára! Nenhum de vocês almoçou, é?
- Não, não senhora.
- É... eu não comi nada, não.
Engoliu seco. Levantou os olhos pra sala e viu-os, todos, apreensivos para ver o que ela iria dizer, esperando o veredicto. Eram as mesmas emoções e curiosidades máximas como no final das novelas e nessa óra ela sabia que devia falar algo, a pressão da decisão. Uma audiência só pra ela, pra receber a bronca, o conselho, o elogio ou qualquer-outra-coisa que ela quisesse falar. Este foi o único momento que ela seria ouvida. Depois, nunca mais.
- Deixem o trabalho na minha mesa. Podem descer mais cedo pro recreio.
Explode coração! A psora liberou mais cedo! Em 2 instantes, estava a sala só o vazio.
Ao corrigir os trabalhos, ficou até feliz, na verdade, muito feliz, ao encontrar uma única resposta trivial "Arroz, Feijão, Bife e Batata Frita" num mar de esquisitices (poemas, desenhos e escritos; filosofia, modernidade e xilogravuras). A nota mais alta ficou com a resposta trivial. O trabalho foi emoldurado e colocado bem no altão, para servir de exemplo a todos, para ser seguido por todos. E quem entra hoje na sala, ainda pode ver o trabalho lá. Ai de quem não seguir as regras direitinho!: ficar sem merenda.
Os mendigos não recebiam um centavo e depois de comprar aquela última aguardente (há três anos passados), nunca mais viram nem nota de um real. Os tempos estavam mudados, mas o vento frio da tarde ainda doía na pele.
Para ela, já passava do meio-dia desde muitos metros cúbicos.
Desviandando pelas possas d'água, a professorinha relembrava a olhos molhados aquela sua aula sempre-lembrável... Bons-tempos, bons-tempos...
As escolas da província do De-faz-de-conta, aquela que fica bem-alí, trespassando a província do Caqui-verdinho, sempre foram, certo-modo, especiais. Mas não aquele "especial" de "especial", mas o especial de um especial-mesmo, de remexer no fundo do peito ao lembrar, ao falar, como todas as outras escolas são, como todas as outras escolas nunca foram. A singela professorinha não seguia as linhas de pensamento Austríaco, muito menos tomou ciência, vez alguma em vida, dos sociólogos alemães que falavam em pós-modernidade, mas ensinava, sempre e de tal forma, que nunca pudera fazer melhor.
A classe estava como uma zona naquele hoje retomado da viva memória. Após esgoelante berro de-deixar-vermelha, ela pôs ordem pessoal no pessoal.
- Hoje a lição é simples.
Seria mais um dia normal. Mediocremente feliz e triste.
- Peguem uma folha de papel e completem a frase No almoço eu comi....
- Só isso, psora? No duro?
- Só isso sim. Mas no duro, não; no papel.
Eles pararam, hipnotizados, como se a sentença fosse senha mágica. Palavras cujo efeito fora muito além do esperado, até para a professorinha, que teve um minuto de calma, como nunca tivera antes. Via a classe, cabeças baixas, a fazer e a lembrar e a escrever e a criar. Não haviam (o que havia, havia; mas, no caso, não-haviam-mesmo) cadeiras, nem pernas, nem planadores de papel a cortar o espaço aéreo. Podia-se ver claro o reinado do silêncio. A poeira decantava-lentinha, espreguiçando-se sobre o chão vermelho.
Em que ano estavam as crianças? 3a série? 4a série? A única certeza que havia, e ainda com diversas ressalvas, é que estavam em 2006. As crianças não eram seres-super-dotados, tampouco tinham o germe do raciocínio lógico hipotético-dedutivo-empírico, ou talvez o tivessem, mas ninguém nunca nem não disse isso a elas. Queriam era escrever tudo certinho, pra modo de mostrar pra psora.
Rolavam boatos interestudantis que a menina é que era a mais inteligente, pois sabia todas as coisas do mundo de dentro e de fora.
- menina, como se diz: ólhos ou ôlhos, zóios ou zôios?
- Olhos.
- Quê?
- Olhos!
- U QUÊ?
- O-LHOS!
- Ôxi! Nem sei qué isso!
As dúvidas eram diversas, mas se resolviam antes de chagar à professora.
- Minha cêna tem acento.
- Pois a minha nem não tem: ficam todos de pé.
O que isso tem a ver com "No almoço eu comi..."? Ninguém sabia, mas Ninguém nem não contou a Qualquer Outra Pessoa (e Qualquer Outra Pessoa, o único que tinha nome, sobrenome e nome-do-meio, ficou muito-muito triste).
O primeiro trabalho a ser entregue foi um origame. Um origame dum prato de arroz e feijão que ao se apertar bem-lá, na cebolinha do arroz, dizia Hum! Comidinha-de-Mamãe é a melhor. Um origame falante. Éssa éra nova.
É por isso que, ainda surpresa, a professorinha, ao receber o segundo trabalho terminado, viu que já se formava fila de espera. E a fila ocorria pois todos queriam entregar em mãos os seus feitos, pra, quem sabe?, até arrancar um sorriso da psora, não é mesmo?
O segundo era um desenho de um prato de macarrão, com um macarrão. Sim, isto mesmo, um macarrão, não mais que um pequeno parafusinho de macarrão, preparado, como que servido dentro do prato desenhado. Tinha os dizeres Comi macarrão, mas não comi este macarrão, porque se eu tivesse comido este macarrão, ele estaria desenhado e não na sua mão. Ao levantar os olhos do papel, viu os dentes-sorrindo do pequeno, que, ao perceber seu objetivo alcançado, saiu correndo mais rápido que rojão.
A professorinha estufou os peitos pra dar um aviso-gritado, porém foi logo interrompida, com a visão de uma folha bem na cara.
- Ólhô-meu.
E ela viu. Viu. Olhou-olhou e nem não viu foi nada!
- Que isso? A folha está vazia!
- É... foi o que eu comi.
- (voz bem baixa) Você não comeu nada?
- (um sussurro no ouvido) Não.
Eis que irrompe outra voz.
- Êle me copiou! Êle me copiou.
Para variar, como sempre tinha de ser, o branquinho e o negrinho estavam a se estranhar. E foi só terminar de dizer o segundo copiou que rompeu a briga, numa maçaroca humana de crianças e sopapos, num aparta-piora. Puxão pela gola do colarinho. Sopapo na orelha.
- Páaaaaaaara!
Pararam.
- O que é que aconteceu?
- Eli me copiou porque eu entregueia a folha...
- Mas eu já tinha dito bem antes para...
- primeiro e então ele veio e disse que...
- a menina que tinha me dito aquela coisa que...
- a menina tinha dito que a idéia éra...
- o meu trabalho estava o mais bonito, bem mais bonito que...
- a do Jaiminho.
- o do Jaiminho.
- (juntos) do Jaiminho?
Olharam para ele, estava com o dedo no nariz. A professora intervém.
- Pó pára! Pó pára! Nenhum de vocês almoçou, é?
- Não, não senhora.
- É... eu não comi nada, não.
Engoliu seco. Levantou os olhos pra sala e viu-os, todos, apreensivos para ver o que ela iria dizer, esperando o veredicto. Eram as mesmas emoções e curiosidades máximas como no final das novelas e nessa óra ela sabia que devia falar algo, a pressão da decisão. Uma audiência só pra ela, pra receber a bronca, o conselho, o elogio ou qualquer-outra-coisa que ela quisesse falar. Este foi o único momento que ela seria ouvida. Depois, nunca mais.
- Deixem o trabalho na minha mesa. Podem descer mais cedo pro recreio.
Explode coração! A psora liberou mais cedo! Em 2 instantes, estava a sala só o vazio.
Ao corrigir os trabalhos, ficou até feliz, na verdade, muito feliz, ao encontrar uma única resposta trivial "Arroz, Feijão, Bife e Batata Frita" num mar de esquisitices (poemas, desenhos e escritos; filosofia, modernidade e xilogravuras). A nota mais alta ficou com a resposta trivial. O trabalho foi emoldurado e colocado bem no altão, para servir de exemplo a todos, para ser seguido por todos. E quem entra hoje na sala, ainda pode ver o trabalho lá. Ai de quem não seguir as regras direitinho!: ficar sem merenda.
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