10.6.07

A Província Baiana

Quando ainda datavam o século passado, no centro-centrinho-centro-mesmo da Grande Cidade, criou-se uma província chamada Baiana. O foco nada mais era que o desenvolvimento, desemburrecimento e doutoramento, para evitar o desaparecimento, desempregamento e doutrinamento de uma elite burguesa daqueles tempos remotos. Mas que província mais bela! Ficava perto de tudo! Um pulinho só!
O problema é que, assim que se falou do Tempo, este, cansado de não fazer mais nada da vida, passou e foi passando até que se tornou presente ao assinar, ou pedir pra Alguém assinar, diversas e diversas listas.
Vale recordar que na data da criação da província, ou depois dela, ou mesmo antes, num perdido psicológico da população, já cantavam pelas rodinhas da malandragem uma modinha tipo exportação, seguida duns instrumentos diversos e uns homens de camisas listradas, ditando última moda em cor-sim-cor-não. Uma modinha-sambinha que até fazia balançar os corações quando se via aquela mulher equilibrando abacaxi ao lado do papagaio de bengala.

O Tempo disse que hoje a província Baiana completa uma saca de anos. Ai que saudades da modinha! Ai que saudades...! Ainda escuto uns burburinhos de canto de ouvido.

O que é que a Baiana tem?
O que é que a Baiana tem?
Tem gente engajada, tem!

Algumas meias-folhas amarelas se prendiam aos muros e pilares da Baiana. Convocação pruma discussão cujo tema eram palavras de ordem e vigor. Palavras emocionantes pruma terça-feira morta.
- Vamos pra outro lugar ou fazemos a reunião por aqui-mesmo?
- (murmúrios na multidão) Vamos prouto lugar!
- (murmúrios na multidão) Fic'aqui-mesmo.
- Tá bom, então, podem se sentar onde puderem. Afasta o lixo aí, abre'spaço entr'as mochilas, vamos ficar por aqui.
As cadeiras são puxadas. Após apresentações vazias e inlembráveis, inicia-se.
- Nós espalhamos alguns cartazes pela província com algumas sugestões de temas a serem discutidos. Mas na verdade hoje nós só vamos discutir é nada, só gostaria de saber o que atraiu vocês pra cá.
- (cara de ponto de interrogação) (pensamento) Putz... E eu que vim aqui só pra tentar entender o que esses caras faziam.
Doce ilusão. Fica para próxima.
-*-

O que é que a Baiana tem?
Tem dicas de ouro, tem!

Nem estava frio, mas o resfriado o pôs rouco. Só ouvíamos devido à ajuda de aparelhos.
- De tal sorte que... 'Ceis tão me entendendo? Ocápa? Porque eu olho pra cara de vocês e penso Puta merda esses caras não estão entendendo nada! Em todo o caso, é como eu digo, tem toda uma ideologia por trás, então numa discução, se vocês não poderem convencer, confundam.
-*-

Tem boas propostas, tem!

- No fim das contas, tomei coragem e vim pra cá, pegar meu "alimento-costas".
- Mas que bom, pode sentar.
Senta.
- Vamos começar?
- Claro.
- Avaliando aqui, pode-se notar por essa estrela ao lado do seu nome que seu desempenho na primeira fase não foi lá grandes-coisas, mas resolvemos te dar uma chance.
- Pôxa, que bom. E a segunda fase?
- Então, na segunda fase...
- Começa pela parte ruim!
- Certo. A parte ruim foi a entrevista, nós te achamos irônico e confuso em alguns momentos.
- E a parte boa?
- Bom, no trabalho, em que a participação era o mais importante, 3 dos seus companheiros disseram que sua parte foi feita com grande descaso, tendo de ser reescrita.
- É éssa a parte boa?
- Mas não desanime! Não perca contato! Você ainda tem chances!
- (irônico) Nossa, que bom, em?
-*-

Tem pérolas de ouro, tem!

Uma baita fila de dobrar o corredor.
- Paga no caixa?
- Não, a caixa está no telefone, já volta.

- Alô? Querida! 'Cê não sabe o que aconteceu! Fui nu médico e contei tudo... Falei que eu tava cum um pobrema na coluna que 'cê nem imagina!

- Ela disse "pobrema"? Pensei que pessoas que falavam assim não passavam de fantasia do imaginário popular.
- (riu-se) Que tal tentar sair da província e dar uma voltinha por aí?
-*-

Só vai no Bonfim quem tem!

Indignados conversavam a três.
- Você acredita que dizem lá-fora que na Baiana só tem burguês!?
- Burguês, burguês... que mentira!
- Foi o qu'eu disse! Aqui tem povo, tem gente, tem operários!
- (espirro) Nem me fale que já fico com alergia.
- Desculpem-me pela verdade, mas pobre, na Baiana, só figura em tabela.
- (espirro)!
- Tem alergia a tabelas?
- Não, tenho alergia a verdades.
-*-

e quem não tem balagandãs não vai no Bonfim!

Conversa de velho-pra-menos-velho.
- E a província atendeu às suas expectativas?
- Mas é claro! As pessoas, de cabelos azuis, andam de patinetes pelas paredes e às sextas-feiras, acredite, a província inteira é só minha. Minha e de minha solidão.
- Mas que ótimo! No mínimo você deve ter conhecido muita gente pelas bandas de lá, né filhão?
- Não, na verdade não. São sempre os mesmos. Os mesmos, sempre.
-*-

Quem não tem balagandãs não vai no Bonfim!
Não vai ao Bonfim, fica a ver um bom-fim...

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