15.7.07

Uma conversa de amor

Na Grande Cidade, hoje, 2006 e sempre, as pessoas nunca nem não tinham muito lá-tempo prum aconchego dum parlatório sem compromisso. Compromisso. Sem compromisso. Comprimidas cada vez mais, as chances de se conhecer alguém diferente, olhando pela janela, ou em algum bonde-de-linha, estavam bem reduzidasinhas. Nos tempos do de-hoje-em-dia, qualquer coisoquinha já estava valendinho. Jogar conversa fora tornou-se um esporte para poucos.

Já estava num anoitece bem fora de época quando ele chegou, jovial.
- O 3-03 já passou?
Ela até que se assustou: "como assim alguém está falando? Deve carecer de resposta."
- Pois nem não passou.
- E desde faz tempo que você está aqui?
- Já faz quinze. Uns quinze minutinhos.

Seriam quinze, e muito mais de quinze, os anos de casados.
- Êsse ônibus demora...
- Você nem sabe quanto!

Um breve intervalo de silêncio, para buscar inovadoras falas criativas e respirar um pouco de poluição.
- 'Cê tem horas, moça?
- Calmaí... Pronto. Falta pouco pras três.

Três seriam os filhos de depois do casamento.
- Mais parece que o tempo está voando hoje, né?
- Você nem sabe quanto!

Era amor, sem dúvida. Amor, puro e verdadeiro. O casamento seria em maio, faltava só a chave de ouro.
- E esse tempo? Acho que hoje ainda chove.
- Pois é, esse frio fora de época!
- Dá até dor-de-dente.
- Ou dor de panturrilha.
Riram-se. Estavam casados.

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