11.8.07

O Ensaio do Parapeito

Era veneno. Ainda é veneno. Veneno escorria das mãos. De veneno sujou as mãos. Brotara, gelado e nojento, por entre as feridas inchadas.
- Não viste, Domingues, veneno! É sangue! É pus!
...
- Não sejas bobo.
...
- Domingues, vá te lascar! Eu vou pular! Parapeito nenhum me segura!

As sirenes gritavam em algum ponto da rua, perdidas e achadas nas largas vias melancólicas de dois mil e mais nada. Era noite que sucede dia de sol ardente e ar condicionado no máximo. As terras da Grande Cidade são conturbadas, perigosas, escandalosas, turbulentas, um "ai-meu-deus-que-medo".

Alto prédio. Último andar. Aquela sala era cheia de vidros espelhados, como nos filmes repletos de vazio daquela época.
Apenas uma janela aberta. Gritava. Chorava. Pularia? Tão alto. Tão distante...
- Queres ver o mundo de outra forma? Entorta a cabeça!
...
- Não, Domingues, não me encha! Quero ficar aqui, sozinho, pra tomar um ar, sabes?
...
- O Papai Noel? Que tem Papai Noel? O Papai Noel é um filho da...

As luzes de todo o prédio estavam desligadas. O prédio estava vazio. Era ímpar aquela única sala iluminada no mar de escuridão. Bem nesta única sala havia este único homem. Grande homem... Um e noventa e abaixa-a-cabeça-para-entrar-no-metrô. Ao contrário do que pensam, se é que pensam, ele não acenava para as pequenas luzes: os dedos, unidos bem juntos, como em sentido, o braço esquerdo erguia sua mão na altura da face. Um leve balançar do conjunto. A diferença entre este gesto feito e acenar, bem como o segredo do seu existir, é, justamente, a face enigmática. Olhos semi-cerrados, um sorriso externo-interno de paz de dinamite, sobrancelhas em pose de gala encurtando a testa, o gesto, como um todo, tinha o ar de "eu-digo-,-eu-digo-,-eu-sempre-disse-isso". Era isto que ele fazia do 38o andar.

Uma senhora chamou a polícia com toda calma, pensou que era mais um assalto. Já nem se assusta mais, está acostumada. Cheiroso vento característico de um parece-que-chove invadiu toda a Grande Cidade, no dia em que o mundo dissera que viria o dilúvio, no dia que o mundo dissera que o sol seria o mais belo já visto. De qualquer forma o mundo nunca acertou. Só quem está certa é a Grande Cidade, pois é só ela quem há.
- Eu faço o que eu quero! Quem és tu, Domingues, pra dizer o que eu faço?!
...
- Ah! Parabéns! Parabéns, Domingues! Quer que eu bata palma pra ti?
...
- Não preciso de calma! Me solto e caio e... tú verás o que vai dar.

O homem que estava prestes a se jogar. Tinha nada além do seu mundo inteiro. Não era nem dono da janela, nem dos próprios sapatos, mas ainda trajava um terno alugado e a barba, bem feita, dizia aos passantes humildes uma porção caprichada de mentiras sem palavras e eles acreditavam. Engoliam a seco a própria miséria, pensando num futuro bom pros seus filhos. De tanto porem-se em lágrimas, ficaram com aquela eterna cara de cansaço.

- Boa a noite, capitão?
- É... o que temos, sargento?
- Só mais um louco, lá em cima, ensaiando um pula-não-pula, falando sozinho.
Com olhos tristes no pós-audição, o capitão soltou um "ah", de meio pulmão, com um dar-de-ombros e quedar de cabeça. A expressão era tão sem graça e sem vida que fez com que os segundos passassem mais lentos e cada vez mais lentamente, até que, inaudível, o tempo parou de passar. Foi assim que o tempo parou. E o tempo parou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom Dantas, a descrição lembra cena de filme.


Abraço!