28.10.07

Adoação

O cacarejo do galo grego, de tão forte, de tão potente, fazia até sol nascer. Ôtro dia o galo morreu e passou, província inteira, só no escuro 3 semanas. Agora quem bota o sol pra riba é a cadela da quitandeira, cada vez que ladra o faz mais alto, até morder a própria língua.

Depois de dois quilos de latido e uma chinelada, o sol nasceu. Ainda datavam 2006 na Província da Espreguiçadeira, bem-lá na Grande Cidade. Havia uma casa, mas não apenas uma, e havia um homem, neste caso apenas um, daqueles-lá, solteiros-de-livro, que despertou, neste dia meio-nublado, meio-sem-núvem, com aquela idéia que, vai-vem-volta-revolta, não lhe saía à cabeça. Queria doar sua casa.

Casa própria, quitepagada, bonitinha, janelas vermelhas, pintura branquinha, estilo barrócocó figurativo neoexpressionista, com pitadas de artenuvô pós-surrealista, calcado na revalorização da natureza morta. Uma belezura. Tão diferente que era muito mais igual que qualquer outra casa que já se viu e já se esqueceu. Seja em qualquer uma das três esferas dos direitos sucedentes, civil, político ou social, não havia viva alma que não dissesse "ésta propriedade, ésta sim possui identidade". E todas as pessoas que por ela passavam se sentiam mais livres por motivos só conhecidos pelos seres do subterrâneo, metroviários e tatus-bola-de-jardim.

**Perversidade**

- O quê?
- Qual parte do "quero doar minha casa" o senhor não compreendeu, padre?
- Mas para que isso, meu filho?
- Ajudar o próximo, padre.
- Mas... Veja bem: ao doar sua casa, você realmente acredita que vai ajudar alguém?
- Mas é claro!
- Nem não vai! Nem não vai! A família que receber sua casa, aquela boa casa, vai é vendê-la, pegar o dinheiro e gastar em cachaça! Eu conheço bem esta gente, trabalho com eles. Todo o bem que você tentou fazer não terá outro fim: será gasto num pudim de cana! Vai, inclusive, piorar a situação deles! Uma aberração! Vejo que você é bem intencionado, filho, mas o tiro vai sair pela culatra, pode escrever!
- Sendo assim, nem vale a pena.

**Ameaça**

- Como assim? Você não pode!
- Como não posso, vizinho?
- Claro que não pode! Onde já se viu! Um disparate!
- (?)
- Imagine que uma família, daquela das províncias dos estrangeiros, venha morar aqui na sua casa-doada, aqui-do-lado, parede-com-parede com a minha.
- Certo. Que tem?
- Pois então! Isto será uma coisa muito perigosa! Sabe-se-lá o que eles vão fazer com a sua casa! E SE todos eles tiverem casas como as nossas? Eles, com certeza, não sabem cuidar tão bem do jardim quanto você...
- Sim, mas...
- E não vão cuidar, nem da pintura, talvez nem recolham o lixo! A casa vai se desvalorizar, porque, além do mais, terá mais moradores e piores, e não apenas se desvalorizará a ela mesma, como desvalorizará a minha casa, que é vizinha.
- Bom, em todo o caso...
- Vai desvalorizar o bairro inteiro! Um surto imobiliário! Será um ataque ao bom preço das nossas casas! Isso é uma afronta perigosíssima à minha liberdade, meu direito constituído, meu direito de ter uma boa casa em um bom bairro! Um disparate!
- Sendo assim, nem vale a pena.

**Futilidade**

- (risos) Azar o seu!
- Como assim "Azar o meu", tio?
- Azar o seu, ué. Grandes-coisa que 'cê vai doar sua casa. Não vai mudar nada, mesmo.
- Mas é claro que...
- A família que receber a casa vai continuar como família, com suas mesmas idéias, com seus mesmos costumes, não será sua atitude que vai mudar alguma coisa, qualquer que seja. Então pode doar casas, pode doar tudo, que nem uma palha vai sair do lugar!
- Mas e SE...
- Difícil. Difícil. Dificílimo. As coisas permanecem onde estão, não adianta mexer. Será uma mudança para não-mudança. Nem vale a pena. Você vai ver, vai por mim, as coisas vão continuar todas como deveriam, só no sapatinho. É uma taxa natural de equilíbrio, não dá pra mudar.
- Sendo assim, nem vale a pena.

Tempos depois, no dia 31 de fevereiro de 2007, só se ouviram poucas coisas pela manhã inteira: com um disparo de revólver, o homem apresuntou-se na sala daquela casa, a casa que se queria doar. As sirenes correram praquela Província, a batina do padre e o nariz do vizinho e o bonachão do tio ainda viram o saco preto carregar o corpo ao IML.

A casa acabou assim. Sem doar. Sem receber. Sem pintar. Sem jardim. Sem nada. Ficou lá, parada no tempo, esquecida, esperando a última tábua cair pra poderem, quem sabe?, construir um prédio por sobre as telhas.

No enterro, nem não tinha muita gente, não havia era ninguém. É que o céu nublado resolveu chover e a chuva foi um desincentivo às famílias e às firmas à ida ao enterro do homem. Em verdade-verdadeira, havia sim alguém e só este alguém. Família inteira. Só estava presente, cabeças baixas, aquela família. A família que receberia a casa, a casa que se queria doar.

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