3.12.07

Laranjas e Peixes Voadores

É impossível não sentir. É impossível querer não-sentir. E ver e ouvir e gustar são tais que estão sempre ligados. Sempre. Mesmo quando os desligamos. Quando eles estão desligados, meu amigo, aí entra algo muito mais forte: a imaginação.

- Cuidado! Cuidado! Mais um pouco 2006 acaba.
- E aí?
- E aí o quê? Acabou-acabou. Começa outro.
- Ai! Vou na venda comprar um calendário-de-pano-pra-por-na-cozinha.
- O bom é que depois vira pano de prato, né?
- Ô se é! Daqueles bem-bonitos.

Toda a quarta-feira éra dia de feira na província Madalena, ah! que província boa! Tinha aquele ar tão provinciano mesclado com todas as coisas vivas da Grande Cidade. Nunca saíram da Grande Cidade, mesmo aqueles que passaram a vida inteira tentando.
- Ólhô peixe! óiô pêxe!
- Laranja, é a dúzia, a dúzia é três!
Também haviam outras bancas-barracas de laranja.
- Laranchumreal! Olhaí, freguêsa. Laranchumreal!
A laranja estava a 1 real: mas não havia doutor nenhum para registrar a queda despinguelada dos preços do fim de feira. Nenhunzinho pra ver a história. Nenhunzinho pra contar. Foi assim que não aconteceu. E sempre não acontecia.

A feira de quarta-feira atraia os muleques que cabulavam aula de matemática pra comer pastel. Não qualquer pastel e não qualquer aula, éra sempre o pastel do Sêo Esaísas, na feira da Rua Macário.
- Ô, Sêo Esaísas, minha mãe já passou?
- Passou não, fio, mandou dizer que vem mais tarde...
- Tu me vende um pastel e põe na conta?
- Só tem de queijo.
- Então vê dois.
O pastel do Seô Esaías, pra hoje, pra trás, pra frente, na memória de todo o sempre, sempre foi-será o melhor pastel do mundo.
- Vou cobrar a sua mãe, vou dizer que 'cê tava cabulando!
- Ôh! Seô Esaías, não me faz isso! Minha mãe me mata!
- Ah, muleque!
O seô Esaías éra um bonachão.

Tirando os que estavam dentro de casa, e os outros que estavam meio-dentro-meio-fora, todo o resto estava na feira. A feira éro encontro de todas as pessoas. As duas, elas estavam a colocar convers'em dia.
- Menina, 'cê num vai acreditar!
- Pois então nem não acredito...
- Ela mandou ele às favas!
- Ah! Não! E ele?
- Ele foi. Chegou lá, não sabia voltar.
- Ai que mentira!
- Mas foi assim que foi, tiro-e-queda, a dona que disse.


Distante do ritmo alucirrodopiante daquelas bandas, ficava na margem do rio o pescador. A província éra pequena, o que dava graça éra pescar.
- (acenando com a cabeça) Bô día.
Tornava só uma levantadinha da mão e um desgrude, por dois instantes, dos olhos da linha. SE deixasse escapar uma palavra, palavrinha qualquer, ela faria um barulhão de espantar até espírito. E peixe? Peixe fugia? Peixe é que não sobrava um!

Tinha dia de sorte. Tinha dia de azar. Tinha dia de lua e tinha dia de não pescar. Depois de um dia destes, voltando lá pras margens de baixo, o pescador encontrou uma máquina alí-parada. E peixe? Peixe tinha? Peixe é que não sobrou nenhum. A sombra da maquinona espantou tudos peixe. Bah! Bah! Quem colocou a máquina-lá?
- Não dá mais pra pescar na margem de baixo, hómi, não tá vendo?
- Claro que dá, mulé. Hoje foi dia de azar.
Ela viva teimando. Eita mulher teimadera!

A máquina éra tão grande. Um horror! Tinha uma boca que parecia cachorro nervoso, ou jacaré, daqueles dos filmes. Éra meio misturado com tanque de guerra. Uns cabos de aço. Manhã vou ver se cruzo rio, pra ver mais de perto.
Na manhã, a máquina continuava lá. Parada. Será coisa alienígena? Cruzou o rio a nado.
A máquina éra bem aberta, e a cabine, parecia carro. Cheia das alavancas e banco estofado. Vou levar o banquembora. E peixe? Peixe levava? Peixe não via há um tempão!
Deve ser despacho de macumba, pra fazer o rio não-subir, quas chuvas que vinham aí. E peixe? Peixe subia? Os peixes já estavam voando.

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