Muito já se discorreu sobre o futuro, mas não o muito suficiente; por essas e outras que eu, como narradora que agora sou, e talvez sempre fosse, (e, com certeza, nada mais serei, porque não sei se não narrar), peço aos senhores ouvintes a licença de me adentrar no palco e falar minhas poucas palavras de sabedoria.
Sobe no palco a narradora engajada Zé-Zé, que vai cantar, vai falar o que é o bom do futuro de-bem-distante.
Esta é uma narração? Eu não sei se não narrar.
- Pois narradora, narre logo!
Vou estar narrando, ou melhor, estarei narrando, assim, narrado, sem parar por um bom tempo-bom. Então não incomode! Geralmente, confesso, reclamam um pouco do meu gerundismo generalizante, mas digo que só perpetuo e oficializo o clássico da-boca-do-povo.
Eis que começa.
Datavam o futuro nas estreitas ruas gélidas da Grande Cidade. De onde mais seria? Nada há fora dos elevados muros altíssimos da Grande Cidade. Só há Nada e o Vazio e só o Vazio e Nada hão. As ruas da GC mudaram nestes últimos cinquenta anos esquecidos e lembrados. Os tons de cinza, antes tão presentes, agora assentam sobre tudo e todos, entros carros voadores que trafegam em marcha ré.
Era o final da vida.
A vida, como a conhecíamos nas bandas de 2006, terminou; mas não de pronto, enérgica: foi minguando, lentamente minguando devagarzinho. Depois de um último suspiro cansado, findou. E todos estavam mortos. Matados há muito tempo. Agora nem se lembravam de pensar. Os olhos que pousarem sobre os casacos das pessoas só sentirão as milhões de dúzias de quilômetros de cargas que eles levam sobre os ombros, e por dentro, e pelo entorno, carga que os envolve e comprime.
Eles estavam na Praça do Relógio.
- (grunhindo) Rrrrr!
- (muita articulação maxilar) Grablaum!
E assim trocou-se uma lata de atum vencido por um sapato furado.
Nunca se esteve de noite, nunca se esteve de dia; tudo, naquele tempo de 2060, era um grande céu nublado que não dizia a ninguém as horas em que se estava, se é que se estava, se é que elas passavam.
Porém hoje, o hoje daquele futuro, era diferente: estava de noite.
A noite da Grande Cidade é extremamente peculiar, sempre foi, sempre será. Peculiar por ser diferente em cada ponto, em cada província, a cada altura, a cada passo. Um pra frente já a torna diferente e, SE se volta ao ponto de origem, ela será diferente da que era quando se ocupava aquele mesmo lugar num instante passado.
Era noite na Grande Cidade. Era noite e era 2060 e era 2006 e eram todos os anos, juntos, amontoados, sobrepostos em planos de milêuma dimensões.
Não importa o tempo. O que importa são as luzes que, quando Alguém andava pelas calçadas, moviam-se pra-cima-pra-baixo, desfocadas, deixando os seus rastros coloridos e ofuscantes. O céu, que céu!, tinha uma coloração levemente azul-escurinho e as nuvens um tom de rosa-tóxico. As estrelas, que estrelas?, nem se sabia mais quantas eram, porque a cada dia uma delas deixava de vigiar os passantes velhos e naquele día só se contava meia dúzia, cansadas.
Era noite daquele qualquer-tempo, também, na Praça do Relógio.
- Sinto uma pequenina influência crescente de Eça de Queiroz nas suas palavras, mô.
Ele realmente era um adivinho.
- Pois não é que estou lendo uma obra dele!
- ... Isto resplandece em seu belo olhar.
- Sua prolixidade e pompa garbosa desnecessária também são resplandecentes.
Sim, eles eram de todo enamorados.
- Isso é um elogio, mô?
- Quer saber? Seus comentários me fazem sentir uma pequena flatulência a caminho.
Pum!
- Yakissoba!
- Pois não é que é que foi este mesmo o meu almoço!
- ... Isto resplandece em sua bela fragrância.
Talvez nunca houvessem havido relógios na Praça do Relógio.
- SE não há ninguém a passar, ninguém a olhar, ninguém a sentir, como saber que a luz está ligada?
A luz em questão iluminava uma ruazinha de piso vermelho-pintado. Os raios emitidos se perdiam no breu da noite.
- SE ninguém há, e apenas ninguém, então também não há luz e só há nada.
- Creio que seja como o céu, que se reconstrói na fração de instantes apenas quando olhamos para ele.
- Pois sim. Porque só há o que eu sinto e não há a realidade
- (falaram juntos, entreolhando-se) ... só há a percepção de realidade.
Riram-se: eram o casal mais feliz do mundo dentro daquele metro quadrado.
Sobe no palco a narradora engajada Zé-Zé, que vai cantar, vai falar o que é o bom do futuro de-bem-distante.
Esta é uma narração? Eu não sei se não narrar.
- Pois narradora, narre logo!
Vou estar narrando, ou melhor, estarei narrando, assim, narrado, sem parar por um bom tempo-bom. Então não incomode! Geralmente, confesso, reclamam um pouco do meu gerundismo generalizante, mas digo que só perpetuo e oficializo o clássico da-boca-do-povo.
Eis que começa.
Datavam o futuro nas estreitas ruas gélidas da Grande Cidade. De onde mais seria? Nada há fora dos elevados muros altíssimos da Grande Cidade. Só há Nada e o Vazio e só o Vazio e Nada hão. As ruas da GC mudaram nestes últimos cinquenta anos esquecidos e lembrados. Os tons de cinza, antes tão presentes, agora assentam sobre tudo e todos, entros carros voadores que trafegam em marcha ré.
Era o final da vida.
A vida, como a conhecíamos nas bandas de 2006, terminou; mas não de pronto, enérgica: foi minguando, lentamente minguando devagarzinho. Depois de um último suspiro cansado, findou. E todos estavam mortos. Matados há muito tempo. Agora nem se lembravam de pensar. Os olhos que pousarem sobre os casacos das pessoas só sentirão as milhões de dúzias de quilômetros de cargas que eles levam sobre os ombros, e por dentro, e pelo entorno, carga que os envolve e comprime.
Eles estavam na Praça do Relógio.
- (grunhindo) Rrrrr!
- (muita articulação maxilar) Grablaum!
E assim trocou-se uma lata de atum vencido por um sapato furado.
Nunca se esteve de noite, nunca se esteve de dia; tudo, naquele tempo de 2060, era um grande céu nublado que não dizia a ninguém as horas em que se estava, se é que se estava, se é que elas passavam.
Porém hoje, o hoje daquele futuro, era diferente: estava de noite.
A noite da Grande Cidade é extremamente peculiar, sempre foi, sempre será. Peculiar por ser diferente em cada ponto, em cada província, a cada altura, a cada passo. Um pra frente já a torna diferente e, SE se volta ao ponto de origem, ela será diferente da que era quando se ocupava aquele mesmo lugar num instante passado.
Era noite na Grande Cidade. Era noite e era 2060 e era 2006 e eram todos os anos, juntos, amontoados, sobrepostos em planos de milêuma dimensões.
Não importa o tempo. O que importa são as luzes que, quando Alguém andava pelas calçadas, moviam-se pra-cima-pra-baixo, desfocadas, deixando os seus rastros coloridos e ofuscantes. O céu, que céu!, tinha uma coloração levemente azul-escurinho e as nuvens um tom de rosa-tóxico. As estrelas, que estrelas?, nem se sabia mais quantas eram, porque a cada dia uma delas deixava de vigiar os passantes velhos e naquele día só se contava meia dúzia, cansadas.
Era noite daquele qualquer-tempo, também, na Praça do Relógio.
- Sinto uma pequenina influência crescente de Eça de Queiroz nas suas palavras, mô.
Ele realmente era um adivinho.
- Pois não é que estou lendo uma obra dele!
- ... Isto resplandece em seu belo olhar.
- Sua prolixidade e pompa garbosa desnecessária também são resplandecentes.
Sim, eles eram de todo enamorados.
- Isso é um elogio, mô?
- Quer saber? Seus comentários me fazem sentir uma pequena flatulência a caminho.
Pum!
- Yakissoba!
- Pois não é que é que foi este mesmo o meu almoço!
- ... Isto resplandece em sua bela fragrância.
Talvez nunca houvessem havido relógios na Praça do Relógio.
- SE não há ninguém a passar, ninguém a olhar, ninguém a sentir, como saber que a luz está ligada?
A luz em questão iluminava uma ruazinha de piso vermelho-pintado. Os raios emitidos se perdiam no breu da noite.
- SE ninguém há, e apenas ninguém, então também não há luz e só há nada.
- Creio que seja como o céu, que se reconstrói na fração de instantes apenas quando olhamos para ele.
- Pois sim. Porque só há o que eu sinto e não há a realidade
- (falaram juntos, entreolhando-se) ... só há a percepção de realidade.
Riram-se: eram o casal mais feliz do mundo dentro daquele metro quadrado.
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