30.1.08

Cozinha utilitarista: Porque o importante é maximizar

Toma-se para análise neste artigo uma fina fatia da cozinha utilitarista e não toda ela. Faz-se isto para que seja possível apurarmos detalhes e esmiuçarmos bem a massa, uma vez que, SE se tentasse fazê-lo com o todo, os resultados seriam bastante amargos. Analisar-se-á o valor calórico dos alimentos e a etiqueta contemporânea e, nas análises, ficará clara a riqueza das teorias econômicas e dos comentários eruditos sobre temas até então ditos banais e cotidianos.


O Valor Calórico dos Alimentos

O Valor (calórico) dos alimentos é um ponto em que podemos ver com a nitidez de uma gelatina a grande oposição de posições que dão sabor a este tema.

Cozinheiros marxistas já escreveram em diversos grundrisses que o valor vem, obviamente, da produção. Assim, o modo de produção dos alimentos (cozinhar, assar ou comer cru; picadinho, à baiana ou ao molho roty) determina quanto valor eles possuem. Além disso, fica claro que o modo de produção é determinado por meio do materialismo histórico disponível, além do mais, servir uma bela copa lombo ao molho argentino, antas da formação histórica da Argentina, seria, no mínimo, um disparate.

Outro ponto muito interessante na análise dos escritos marxistas sobre a cozinha é a questão da infra-estrutura e da super-estrutura. É límpido como água natural que a infra-estrutura determina a super-estrutura, mas não é tão simples assim: críticos dirão que para abrigar um fogão, uma geladeira, a pia e a estante (requisitos da infra-estrutura para realizar-se uma refeição contemporânea) não é necessária super-estrutura nenhuma; com uma média-estrutura, quiçá com uma pequena-estrutura, já é possível preparar pratos ricos em vitaminas.

Mas o mundo que envolve a cozinha não contém apenas marxistas. Tem-se, também, a teoria é a utilitarista e é por ela que se analisam diversos assuntos; um deles, a etiqueta.


A etiqueta utilitarista

Diz-se que a etiqueta é um código social criado para reafirmar os valores nobres, em detrimento aos recém criados valores burgueses. Diz-se, também, que a etiqueta é um código social criado para manter os nobres entretidos enquanto deixavam de pensar no que realmente importa. Diz-se muita coisa...

Pode-se encontrar nos livros de receita utilitaristas a hipótese de que a etiqueta tenha sido criada para/pela maximização do ato de comer. As maneiras maximizadoras, já maximizadas por um maximizador primordial chamado Walra, cuja ocupação era ser leiloeiro (e, posteriormente, montou o sindicado dos leiloeiros e ganhou muito dinheiro) foram simplesmente transcritas, registradas e divulgadas para todas as pessoas.

Então tomemos um livro de etiqueta nas mãos, o que veremos? O conjunto dos pontos ótimos que maximizam o prazer e minimizam o esforço, dentro da função utilidade. Faz-se necessário um exemplo prático:
- Quando alguém vai servir-se, quanto deve encher o copo?
Segundo os filósofos da teoria utilitarista da etiqueta a resposta para este questionamento é muito simples, apesar de depender de diversas variáveis, inclusive as inexistentes.
A etiqueta utilitarista, supondo um mundo ideal, nos diz que o copo deve ser cheio o máximo possível (pois reduz a quantidades de vezes que teremos de reenchê-lo), porém sem desperdiçar o líquido (além do mais, desperdício é prejuízo), dados os fatos, deve-se acrescentar que, caso o copo esteja cheio até a borda, qualquer abalo sísmico na mesa (pequenos terremotos, chutes na mesa, um esbarrão desajeitado ou uma gorfada imprevista) pode nos levar a fazer o copo cair e seu precioso líquido desperdiçar-se.
Deste modo, o copo não pode estar totalmente cheio, mas possuir uma margem de segurança que é nada-mais-nada-menos que um volume que impedirá o líquido sair do copo com um intervalo de confiança de, digamos, 90%.

Segundo a teoria, só após fazermos estes cálculos e assumirmos nossas taxas de risco é que poderemos encher um copo com cerveja, vodka e etc...

É neste momento que se junta à teoria utilitarista outro ponto deveras interessante: o determinismo.

O determinismo impregna o que já temos hoje. Quanto colocar em um copo? Uma dose. A dose é justamente a quantidade ideal que maximiza a preferência, dadas as complicações e as probabilidades de se perder o líquido. E como se têm certeza disso? Fácil. Foi justamente ela quem sobreviveu na história e é adotada até hoje, caso não fosse a porção-maximizadora, ela, ineficiente, já teria sido extinta. Eis um argumento racional.

Porém isto é uma falácia: pode-se argumentar que a escolha da quantidade que compõe a dose é uma dependência de trajetória, que já imobilizou muito capital fixo (em copos, formas...) e que, para ser mudada por algo mais eficiente requer um investimento que não vale a pena. Assim estamos fadados a recebermos quantidades ineficientes-não-maximizadoras quando pedimos uma bebida, ou, o que é pior, ter de refazer os cálculos cabulosos que levaram os inventores da dose a chegarem na medida eficiente.

Esta, e diversas outras, são questões que podem nos entreter por horas e horas de masturbação mental. A mais pura masturbação mental que nos ajuda a compreender o mundo, ou arranjar um modo hiper-complexo de compreendê-lo, seguindo sempre a máxima, já proferida por professores da USP, "se não pode convencê-los; confunda-os".


Escrito por Dantas
5º sem Economia Diurno
dantas5@yahoo.com.br

Um comentário:

Anônimo disse...

A solução é simples, oras: beba da garrafa!