Era uma vez uma casa simples da província de Aqui-do-lado. Foi erguida a ferro-e-fogo naquele cantinho trupicante da Grande Cidade, num perdido de eiras e beiras e casas abandonadas, naquele tempo de liberdade incondicional de um qualquer-século-qualquer.
Além do móveis invisíveis e do conforto inventado, morava na casa o que se pode chamar família inteira.
- O que é, o que é, cai-de-pé e corre deitado??
- ... É... É já-sei! É felicidade! É felicidade!
- Nem não é!
- (cheio de tristeza) Ah! Então não-sei! Assim não vale!
- Felicidade... vê se é? Felicidade... nem sei o que é!
A tudo banhava um som meio ambiente, meio não-ambiente, de uma tevê sempre ligada que de-hora-em-hora cantava números com sua voz engraçada.
- Paiê! Eli mi xingou de animal!
- Quê?
- (agora quase um choramingo) Me xingou de animal!
- Venha cá, minino, cê xingou se'rmão, é? Seja homem!
- Mas eu nem não xinguei ele!
- Vai levar uma sova, sova de-vara-de-marmelo.
"Antigamente" era um tempo que todos já agradeciam por ter passado. Passou. Agora está morto e enterrado com a vovó, a única que gostava dele.
- Sabe, seo moço, antigamente "necessidade" nem não tinha luz, não.
- Não havia necessidade de luz, é?
- Não-não: ne-cê-ssidade, aqui, sabe?, não tinha luz, não.
- Ah! "Nessa cidade", você diz?
- Pois então.
Os homens da casa, lá pela noitinha, se reuniam no em-frente-à-tevê, num brinca-não-brinca, pra modo do tempo passar mais depressa.
- Olha, pai, o barbudo de-novo!
O barbudo era comunista.
- E o de terno, também!
Neoliberal.
- Xiu, seus muleques! Cêis não vê qu'eu quero ouvir jornal?!
Seria um debate?
- O estado contemporâneo de desenvolvimento da sociedade clama por pesadas mudanças na economia e na política, incluindo reformas de base há muito arquivadas no esquecimento da prosperidade!
E como resposta, as palavras do barbudo vermelho receberam um longo bocejo.
- A má distribuição de riqueza bate em nossas portas, os problemas sociais afloram e resplandecem nas ruas e sarjetas, medidas sociais ineficientes de um governo fraco voltado para as elites capitalistas...
O barbudo foi interrompido.
- (explosão!) O senhor é um comunista! Suas palavras falsas estão repletas de demagogia e utopia!
- (aos berros) Veja lá como o senhor fala!
- COMUNISTA!
- A é?
E saíram no tapa, no meio do programa ao vivo.
Após acalmarem-se, seguiram-se discursos perdidos com palavras perdidas, ininteligíveis: individualismo, capitalismo; pobreza, miséria, corrupção; democracia, burocracia, sertão. As palavras geraram um desalento. Um soninho bom. Um grande soninhozinho bem-bom.
Dormiu.
Dormiram os três.
- O que é, o que é, quanto mais se tira, mais se tem?
- Éss'é fácil! É pobreza! É pobreza!
- Nem não é!
- (cheio de tristeza) Ah! Cê tá roubando!
- Pobreza... vê se é? Pobreza... nem sei o que é!
02.jun.2006
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