12.1.09

Uma certa lagoa

13.jan.2009


Hoje, vendo sua piscina, me fez lembrar a minha lagoa.
0k, a lagoa não éra lá minha, ou sua, ou de todos. Dirão das coisas dos bens públicos. Direito não-definido. Mas eu sei muito bem de quem era aquela minha lagoa. Ah! A minha lagoa. Minha lagoa era da Mãe Natureza.
E tanto era que explico.
Quando eu-pequeno cheguei ali nas bandas da província Do-Depois-Da-Placa-De-Madeira, no seguido da encruzilhada do cruzeiro-jogado pelo caminho de pinheiros e outras coisas mais, a lagoa já estava e fazia tempo. Imemoriável. Antes mesmo de tudo e de todos, no que nem se sabe, homem nenhum. E SE Ninguém sabia, se cria alguma lenda, mística, folclore explicativo, pra fazer coisas darem sentido e pronto-acabou.
Foi assim que minha lagoa nasceu do folclore inventado, das certas histórias, no mesmo tento dos homens que bebiam leite de onça, só que bem mais ao sul, claro. Antes do Quando-vi, estava-alí, a minha lagoa já tinha história.
Mas tinha e não-tinha.
Tinha porque tinha, mas não-tinha porque não guardava com ela. Quem guardava [a história] era a Nega Zulu.

Nega Zulu éra quem. Sempre assim vestido pintado, colar de ouros, pote na cabeça, andarilha. Contava que a lagoa tinha nascido filha da tromba d'água que quis ficar pra ver as altas-montanhas, toda apaixonamentos. A água, que deveria aguar por si, ficou, por vontades; e a montanha de tão alta, e míope, não via era água alguma, só escutava Chuá-chuá-não-quero-águá, e sabia o que era? Cantos da lagoa.
Curiosa, foi descendo, foi descendo, foi descendo e virou monte. Montainhazinha. Aquelas-alí, dos entornos. E quando gente sobe no monte-montanha, lá de noite ou meio-dia, pode ouvir a lagoa cantar, como sempre cantou - cântico de amor - Chuá-chuá-não-quero-águá.

Eu, particularmente, já subi nos montes umas trocentas vezes e nunca ouvi coisa nenhuma. Hoje acho até que a Nega Zulu era inventando tudo isso, pra modo de fazer os-pequenos dormirem. E pro meu filho? Como conto? Conto sem por nem ponto, conto no tudo de novo, tal como a nega; e o bicho dorme. Dorme que é uma belezinha, dorme que ronca.

Mas, sabe que? Hoje, vendo sua piscina, me fez lembrar a minha lagoa.
Minha lagoa era algo que... não sei. Não encontro em lugar nenhum, só lá-mesmo. Das periculosidades, as maiores do mundo: tinha tubarão, branco, daqueles de cabeça de onça pintada, igual que filme; e correnteza, fortíssima, puxava mais que... sei lá. Pra baixo, principalmente. Ôtro dia neguinho foi, morreu: só encontraram a dentadura. E puxa pro lados, também. Ainda mais forte. Sentido do poente, às vezes invertido, horizontal e vertical. Da nascente à foz. A minha lagoa é o mundo todo.
De largura devia de ter uns... três campos de futebol, ou trinta, talvez trezentos, com trave e tudo e não venha você pensando que era campinho, não! Campão, dos mais grandes. Oficiais. De profundo ninguém sabia. Lembro o dia, eu-jovem, que o doutor foi pra ver destas coisas. Ficou hospedado em casa nossa, claro. Amanheceu cedinho, pegou o barco e foi. Media que media que media e nada. Tacava coisa, bola, quadrado, triângulo, prancheta, preenchia, no meio da lagoa. E o sol? Vuxi! Era de tão branco, ficou vermelho, qual pimentão. E a medelança? Nunca nem se soube. Voltou de cara amarrada, fechada. Cara de jiló. Disse mais nada. Devia ser de-vergonha, conseguiu foi número nenhum, só quase que cai lá dentro, num escorrega. Voltou pra casa. Coisas de doutores.

Acho queu vou dar um mergulho nessa sua piscina, apesar deu só saber nadar em lagoa Que acha? Devo de aprender ligeiro, ou afogar-me; assim possa refrescar-me um pouco, ou morrer logo de calor; e esquecer de vez essa história de lagoa, ou guardá-la-fixa, impregnada, para sempre, em meu coração.

Nenhum comentário: