07.mar.2009
Tra-pá-RáRáRáRá-Pum! Tra-trum-pá. RáRáRáRá-Trá-Pum!
Eram rajadas de tiros. Submetralhadoras mais que automáticas, automatizadas. Cyborgues de esteira de inteligência artificial sobre-humana. Mãos mecânicas. Braços de armas, metálicos, cinzentos, ameaçadores, mortíferos.
Esgueirava-se pelas muralhas dos prédios altos. Era ladrão, sabia das coisas. Subindo pela Rua 5, deixando os tiros e feridos do Largo 13, já se via a multidão novamente. Gentes: coradas, caras redondas, manchadas, parecidas no tom de tristeza. No largo 13 ainda usavam tiros de balas pressurizadas; nos outros lugares, províncias ricas, usavam-se feixes lasers que são impossíveis de desviar: quando se vê, já é torrada.
O ladrão continuava o serpenteio despistentando, mas... Peraí; que é aquilo? Era um chip implantado - conexões atômicas com mais de três redes. Escamoteadamente, lançava no cérebro, ao passo de um instante, a posição dos cyborgs, as velocidades dos carros dos carabineiros e o nível de aproxegância em que estavam.
Ainda estavam perto, mas, sem dúvida, um ladrão, como o tal, seria o menor dos problemas a serem encontrados nas ruas da Grande Cidade. Seja no Largo 13 ou na Rua 5 ou em qualquer rua de qualquer província, central ou periférica. Já contavam 2030, ninguém mais ficava assustado com coisa pequena.
Era um ladrão. Possuia ética. Ser pego? Jamais. Nada de sadismo gratuito, cobiça insaciável, nem de cobertura midiática. Era do tipo colecionador.
Colecionador, mas, ainda assim, e talvez no justamente, ladrão.
Colecionava idéias, roubava pensamentos.
(Agora os mais afeitos aos quadrinhos e às leituras gostosas pensarão em poderes psíquicos, forças super-naturias, Arquivo X de ETs na terra, mas não. Nada disso. Quiçá pensarão, dada a evolução do mundo, em algum chip intrauterino, implantes cibernéticos, ultra-tecnologia, mas não. Nada disso, também. Agora pare de pensar e continue a ler.)
Esse nosso ladrão-colecionador era uma corcunda. Velha, fedorenta. Num sobretudo preto. Na noite. No beco. Numa chuva fina que choveu-já e não enxugou do chão molhado as aflições dos atingidos, deixando-o assim, transbordante em sentimentos.
Neste momento, livrado de suas problemáticas, ia a um pub, ou o-que-sei-eu-lá-que-seja.
No pub é que, deixando o casaco, começava a atuar surdinamente. Capturando idéias. Todas. O máximo que podia assimilar. Porque não adiantava apenas tomar contato. Não-não. O ladrão tinha que assimilar. Talvez por isso ele já fosse lá de um modelo velho. Assim, das antigas. Old Fashon. Por que os modelos novos, Ah! Meu amigo! Os modelos novos não dão nem graça. No automático. Apertou assim, já foi. Tá tudo dentro. E têm muito espaço; de imadurez, talvez.
Multifuncionais.
Ele não.
O negócio era a download único. Toda a concentração pra entender. Bom, primeiro para ouvir. Ouviu, então passava um período digerindo. E, então, tá lá, assimilado. Nunca engolindo, porque o engolir, no simplesmente, não faz sentir gosto: só encher barriga.
Era uma máquina antiga. Máquina-homem-coisa-humana. Mercadoria. Se não digerisse não assimilava. Se não ouvisse não digeria. Bem assim, linear.
Mesmo com toda aquela interface carrancuda, sabia passar no desapercebido; mas eis o problema: se derretia todo nas partes internas quando era encontrado trabalhando, principalmente se fosse por meninas bonitas que seguram flores, crianças sorridentes, ou um simples olhar perceptório de presença. Não precisava nem de falar, naqueles momentos.
Isso era uma grande desvantagem que invalidava, às vezes, o trabalho do mês todo. Mês todo, todo derretido. Por dentro, internalidades.
Um pouco pra frente, estava findada mais uma jornada de trabalho. E assimilado tudo, todas as janelas fechadas, todos as instalações instaladas, tudo no seu devido lugar, defragmentadamente, aí ganhava em conhecimento e eis seu fim último.
A verdade é que ganhava e não ganhava.
Ganhava porque, no dia seguinte, pelo de-manhã, ia pras ruas contar das coisas que sabia e apresentava diversos pontos de vista, retóricoso. Dependendo do assunto ia ao mais profundo e discorria por horas e horas (e se o assunto não fosse propício, não ficava quieto e habilmente movia, sem perceber-percebendo, o assunto para onde quer que queria). Pontos de vista que nenhum era seu, mas todos o eram, porque estavam cadastrados, catalogados, registrados, fácil acesso, bem organizados, organicamente na sua memória. Era só tirar de lá e repetir, mostrando as diversidades do pensamento humano. Nossa. Que pessoa mais culta. Como escreve bem. E repetia, repetia, usava o que aprendeu ouvindo, e nada mais. Seu banco de dados permitia atingir abismos, mas nem sempre chegava lá, porque o tempo, cada vez mais curto, limitava as conversas à superfície, e só ela se tinha para toda a performance das gentes do mundo.
Era fina a superfície de patinação. Até nas festas. Ninguém queria saber das coisas. Era só diversão. Estouro da champanhe e outras luxos assim, no desnecessário. Ir mais fundo para quê? Ai que frio! Ai que chato! O mundo é do divertido.
O segredo talvez fosse a felicidade que lhe proporcionava por um momento ser o centro das atenções e deixar o gostinho das boas impressões nas bocas dos ouvintes, juntamente com os canapés e as cervejas novas e belamente rotuladas.
Gostinho de boca, esse, que ele pessoalmente nunca sentiu; mas que devia ser tanto [nos outros] que transbordava e, algumas vezes, até caia sobre seus ouvidos. Quando isso acontecia, entrava em ação a segunda arte (já que a primeira era roubar): com uma dissimulação mil, ouvia e fingia que. Todo sorrisos. Como se nem. Mas no fundo, já não era novidade, era objetivo.
E assim o ladrão ia vivendo. De dia usava, de noite roubava. Mas o ladrão, de tanto repertório, sabia que estava em um ponto de desequilíbrio. Que aquilo do fazer o que fazia não estava em projeção duradoura. Não podia de. Tinha de encontrar algo que fizesse as coisas tomarem lugares que um simples soprãozinho não as fizesse voar pelos ares. E isso era fácil? Claro que não. Ou sim?
Geralmente quando tinha alguma dúvida, como aquela última, fingia que iniciava uma conversa e a levava para o lado que queria até que o receptor-vítima soltasse pelos ares seus pensamentos e eles viessem, levemente, cair dentro dos arquivos impecáveis. Só então com uma junção de diversos pensamentos fichados, tirava uma conclusão, ou a roubava também. E com a conclusão, aí tomava atitude. Assim, precisava indagar para ter mais sobre o assunto, já que ainda não.
E assim mais uma vez entrou no pub, com essa idéia errada de um tal desequilíbrio vivenciável e de que as coisas não poderiam ficar para sempre no assim como estavam. Entrou tão humano e entediante quanto nós: humanos entediantes: eis o disfarce perfeito. Será que desta vez ele consegue encontrar a resposta para o equilíbrio? Ninguém nem tava falando sobre isso! Como fazer?
Se éssa fosse a única dúvida em sua mente, não haveriam mais dúvidas em sua mente.
Foi neste dia, momentinho do início da primeira conversação da noite, que a bomba explodiu. Botou um cyborgue a porta abaixo, Cyborgue-polícia, detentor do uso da força, das armas e das antigas balas de pressão hermética. Entrou atirando, como dizeu-se depois. Acertou o gato, um cachorro, três garrafas de drinques dançantes do balcão, uma luz e a de trás também, um seio falso (que murchou na hora, causando grande embaraço) e talvez algumas gentes, outros figurantes, todo um resto sem importância.
Entre os feridos estava o ladrão. E a gritaria, pisar de pés, pernas correndo. Tudo junto.
Quando a poeira estrelar baixou, descobriram que o cyborgue, racionalmente desregulado, entrara no pub errado. Então tudo bem. E quando se lembraram da corcunda que se disse ter visto cair no meio do salão, já era tarde de mais: estava evaporada. Equilibradamente evaporada.
Tra-pá-RáRáRáRá-Pum! Tra-trum-pá. RáRáRáRá-Trá-Pum!
Eram rajadas de tiros. Submetralhadoras mais que automáticas, automatizadas. Cyborgues de esteira de inteligência artificial sobre-humana. Mãos mecânicas. Braços de armas, metálicos, cinzentos, ameaçadores, mortíferos.
Esgueirava-se pelas muralhas dos prédios altos. Era ladrão, sabia das coisas. Subindo pela Rua 5, deixando os tiros e feridos do Largo 13, já se via a multidão novamente. Gentes: coradas, caras redondas, manchadas, parecidas no tom de tristeza. No largo 13 ainda usavam tiros de balas pressurizadas; nos outros lugares, províncias ricas, usavam-se feixes lasers que são impossíveis de desviar: quando se vê, já é torrada.
O ladrão continuava o serpenteio despistentando, mas... Peraí; que é aquilo? Era um chip implantado - conexões atômicas com mais de três redes. Escamoteadamente, lançava no cérebro, ao passo de um instante, a posição dos cyborgs, as velocidades dos carros dos carabineiros e o nível de aproxegância em que estavam.
Ainda estavam perto, mas, sem dúvida, um ladrão, como o tal, seria o menor dos problemas a serem encontrados nas ruas da Grande Cidade. Seja no Largo 13 ou na Rua 5 ou em qualquer rua de qualquer província, central ou periférica. Já contavam 2030, ninguém mais ficava assustado com coisa pequena.
Era um ladrão. Possuia ética. Ser pego? Jamais. Nada de sadismo gratuito, cobiça insaciável, nem de cobertura midiática. Era do tipo colecionador.
Colecionador, mas, ainda assim, e talvez no justamente, ladrão.
Colecionava idéias, roubava pensamentos.
(Agora os mais afeitos aos quadrinhos e às leituras gostosas pensarão em poderes psíquicos, forças super-naturias, Arquivo X de ETs na terra, mas não. Nada disso. Quiçá pensarão, dada a evolução do mundo, em algum chip intrauterino, implantes cibernéticos, ultra-tecnologia, mas não. Nada disso, também. Agora pare de pensar e continue a ler.)
Esse nosso ladrão-colecionador era uma corcunda. Velha, fedorenta. Num sobretudo preto. Na noite. No beco. Numa chuva fina que choveu-já e não enxugou do chão molhado as aflições dos atingidos, deixando-o assim, transbordante em sentimentos.
Neste momento, livrado de suas problemáticas, ia a um pub, ou o-que-sei-eu-lá-que-seja.
No pub é que, deixando o casaco, começava a atuar surdinamente. Capturando idéias. Todas. O máximo que podia assimilar. Porque não adiantava apenas tomar contato. Não-não. O ladrão tinha que assimilar. Talvez por isso ele já fosse lá de um modelo velho. Assim, das antigas. Old Fashon. Por que os modelos novos, Ah! Meu amigo! Os modelos novos não dão nem graça. No automático. Apertou assim, já foi. Tá tudo dentro. E têm muito espaço; de imadurez, talvez.
Multifuncionais.
Ele não.
O negócio era a download único. Toda a concentração pra entender. Bom, primeiro para ouvir. Ouviu, então passava um período digerindo. E, então, tá lá, assimilado. Nunca engolindo, porque o engolir, no simplesmente, não faz sentir gosto: só encher barriga.
Era uma máquina antiga. Máquina-homem-coisa-humana. Mercadoria. Se não digerisse não assimilava. Se não ouvisse não digeria. Bem assim, linear.
Mesmo com toda aquela interface carrancuda, sabia passar no desapercebido; mas eis o problema: se derretia todo nas partes internas quando era encontrado trabalhando, principalmente se fosse por meninas bonitas que seguram flores, crianças sorridentes, ou um simples olhar perceptório de presença. Não precisava nem de falar, naqueles momentos.
Isso era uma grande desvantagem que invalidava, às vezes, o trabalho do mês todo. Mês todo, todo derretido. Por dentro, internalidades.
Um pouco pra frente, estava findada mais uma jornada de trabalho. E assimilado tudo, todas as janelas fechadas, todos as instalações instaladas, tudo no seu devido lugar, defragmentadamente, aí ganhava em conhecimento e eis seu fim último.
A verdade é que ganhava e não ganhava.
Ganhava porque, no dia seguinte, pelo de-manhã, ia pras ruas contar das coisas que sabia e apresentava diversos pontos de vista, retóricoso. Dependendo do assunto ia ao mais profundo e discorria por horas e horas (e se o assunto não fosse propício, não ficava quieto e habilmente movia, sem perceber-percebendo, o assunto para onde quer que queria). Pontos de vista que nenhum era seu, mas todos o eram, porque estavam cadastrados, catalogados, registrados, fácil acesso, bem organizados, organicamente na sua memória. Era só tirar de lá e repetir, mostrando as diversidades do pensamento humano. Nossa. Que pessoa mais culta. Como escreve bem. E repetia, repetia, usava o que aprendeu ouvindo, e nada mais. Seu banco de dados permitia atingir abismos, mas nem sempre chegava lá, porque o tempo, cada vez mais curto, limitava as conversas à superfície, e só ela se tinha para toda a performance das gentes do mundo.
Era fina a superfície de patinação. Até nas festas. Ninguém queria saber das coisas. Era só diversão. Estouro da champanhe e outras luxos assim, no desnecessário. Ir mais fundo para quê? Ai que frio! Ai que chato! O mundo é do divertido.
O segredo talvez fosse a felicidade que lhe proporcionava por um momento ser o centro das atenções e deixar o gostinho das boas impressões nas bocas dos ouvintes, juntamente com os canapés e as cervejas novas e belamente rotuladas.
Gostinho de boca, esse, que ele pessoalmente nunca sentiu; mas que devia ser tanto [nos outros] que transbordava e, algumas vezes, até caia sobre seus ouvidos. Quando isso acontecia, entrava em ação a segunda arte (já que a primeira era roubar): com uma dissimulação mil, ouvia e fingia que. Todo sorrisos. Como se nem. Mas no fundo, já não era novidade, era objetivo.
E assim o ladrão ia vivendo. De dia usava, de noite roubava. Mas o ladrão, de tanto repertório, sabia que estava em um ponto de desequilíbrio. Que aquilo do fazer o que fazia não estava em projeção duradoura. Não podia de. Tinha de encontrar algo que fizesse as coisas tomarem lugares que um simples soprãozinho não as fizesse voar pelos ares. E isso era fácil? Claro que não. Ou sim?
Geralmente quando tinha alguma dúvida, como aquela última, fingia que iniciava uma conversa e a levava para o lado que queria até que o receptor-vítima soltasse pelos ares seus pensamentos e eles viessem, levemente, cair dentro dos arquivos impecáveis. Só então com uma junção de diversos pensamentos fichados, tirava uma conclusão, ou a roubava também. E com a conclusão, aí tomava atitude. Assim, precisava indagar para ter mais sobre o assunto, já que ainda não.
E assim mais uma vez entrou no pub, com essa idéia errada de um tal desequilíbrio vivenciável e de que as coisas não poderiam ficar para sempre no assim como estavam. Entrou tão humano e entediante quanto nós: humanos entediantes: eis o disfarce perfeito. Será que desta vez ele consegue encontrar a resposta para o equilíbrio? Ninguém nem tava falando sobre isso! Como fazer?
Se éssa fosse a única dúvida em sua mente, não haveriam mais dúvidas em sua mente.
Foi neste dia, momentinho do início da primeira conversação da noite, que a bomba explodiu. Botou um cyborgue a porta abaixo, Cyborgue-polícia, detentor do uso da força, das armas e das antigas balas de pressão hermética. Entrou atirando, como dizeu-se depois. Acertou o gato, um cachorro, três garrafas de drinques dançantes do balcão, uma luz e a de trás também, um seio falso (que murchou na hora, causando grande embaraço) e talvez algumas gentes, outros figurantes, todo um resto sem importância.
Entre os feridos estava o ladrão. E a gritaria, pisar de pés, pernas correndo. Tudo junto.
Quando a poeira estrelar baixou, descobriram que o cyborgue, racionalmente desregulado, entrara no pub errado. Então tudo bem. E quando se lembraram da corcunda que se disse ter visto cair no meio do salão, já era tarde de mais: estava evaporada. Equilibradamente evaporada.
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