28.4.09

O ouro de Tambucutu - Parte II

(Você já leu a Parte I? Não? Então clique aqui)

Como disse, a história confunde-se e não é bem assim, nas linearidades. Um, depois ôtro, depois depois-de-ôtro: pode esquecer. Como pode ser? Eu sou o século XXI e é assim que será, porque foi assim que foi, nos meus recordamentos, ou não quer mais saber?

Quando em 2024, o governo da Grande Cidade iniciou oficialmente o programa de extradição voluntária de compatriotas - fui logo contemplado num dos primeiros lotes liberados - minha sorte: província de Luderitz, na antiga Namíbia, como os anciãos hão de recordar.
Era província da costa leste do Atlântico e eu tinha 23 anos. Isso éra tudo que sabia.
Embarquei de pronto, assim que do início do outono. Emoções mil, num misto de servir a humanidade e ser extraditado arbitrariamente. Era culpa dos meus braços. Braços fortes de trabalhadeiro. Era aventura e terror e ambos, nas horas certas, permaneciam encurralados em meu peito.

Saía de minha província como se da primeira vez.

A travessia era de morte. Cruzar a imensidão de água. Demoramos 3 meses, joga-daqui-joga-decolá, de enjôo e balanço na embarcação, até que Terra a vista! e então. Os primeiros dias, ou meses?, foram de aprofundamento, enraizamento, uniformamento. O homem e a terra, uma coisa só. Saímos, destacamento inteiro, das costas e nos dirigíamos, à marcha de passos largos, até onde e depois não mais.
O objetivo sempre fora o coração. Dos homens e da terra. Dos nativos e da província. Para o ataque, em baionetas!, e para o domínio, aquartelados. Estávamos no interior e avistamos as serras.

Ah! As serras de Luderitz. Acho que parte de mim nunca deixou as serras daquela província: fundávamos Conceição do Mato Dentro no ponto equinócio; éramos invencivelmente insignificantes perto da multidão de belezuras naturais. Os montes, aos montes, de monte a monte, monte da formação geológica. Extendia-se uma pradaria de topo de colinas, algumas um pouco mais altas, em afloramentos de pedregulhos. E as plantas? Sempre-vivas!, ainda que as vezes secas.
Explorávamos a região sem limites, patrulheiros que se enviavam para tantos quantos os pontos azemutais. Por rios e riachos, serra acima e serra abaixo, passa vale, passam pedras. Tudo muito antigo e calmo, mergulhadamente no céu azul.

Foi no justamente, dias antes, ou depois, quiçá ao mesmo tempo, que se soube do ouro. Há poucos quilômetros, nem semana em marcha; coisa pequena, alí pertinho, pulinho só. Tambucutu. Ninguém mais dormia. Tambucutu. Todos queriam saber, e poder, e ser o pioneiro. Tambucutu. Era ouro em pó, em pepitas, amálgama de mercúrio, ouro de sangue. Ouro. O destacamento, já não mais, alucinado. Ouro! Pelas veias, fervidas, estava lá, poucos metros. OURO! Fogo! Fogo! O acampamento em chamas! Todos correndo e matando pelo ouro do Tambucutu.

A 26 de abril de 2025, o ouro do Tambucutu e o fogo do cerrado já haviam devorado a vida, a alma e a carne de todos nós e também daqueles que mais soubessem da história. Eram outros espíritos, em criaturas horripilantemente humanas. E só havia um modo de acabar: era no cumprir da sina e no buscar do ouro. Para lá marchávamos.


Continua. - Parte III

terça. 28.abr.2009

2 comentários:

Bruxa de Blair disse...

"Tudo muito antigo e calmo, mergulhadamente no céu azul." Você consegue transmitir uma atmosfera muito envolvente!! Até parece que eu já estive nessa tal de Conceicão do Mato Dentro =D

Guarapan disse...

"E as plantas? Sempre-vivas!, ainda que as vezes secas."

Citando o Juliano: "Genial! Genial!" :-)