7.8.09

O ouro do Tambucutu – Parte III

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O ouro do Tambucutu – Parte III

Reza a lenda que apenas no instante exato em que se pôs em movimento era que o relógio marcara as horas exatas. Depois disso, nunca mais. Oh! Quão raro seria por um relógio em exata hora mundial, fuso horário do meridiano certeiro da província da Grande Cidade! E não fora obra de hábil relojoeiro, não; fora um anônimo qualquer. Só podia ter sido um imenso golpe de sorte - e dos grande. Um milagre? Reza a lenda...

Porém, como em todos os poréns, ao passo do primeiro segundo... Já se estava iniciado o adianto.
Assim também foi com o ouro do Tambucutu, lado-a-lado - ainda que opostamente: no caso do segundo, iniciado o atraso.

O relógio foi pendurado na parede da cozinha da casa, lugar de prestígio, não para qualquer utensílio. Depois dos primeiros dias, uma surpresa: as horas que pareciam ser, não eram e os habituais supostos atrasos nos compromissos, não mais - grata surpresa chegar na hora pensando que tudo perdido.

Os atrasos nunca mais se repetiram com a namorada, antes da extração da primeira pepita, com os amigos, no trabalho, no jantar de família, aos olhos do chefe, antes do apito do sino, no início da labuta, antes de receber a primeira ordem, antes da hora do ponto, na firma, nas minas, antes dos picareteiros, antes de se abrirem as minas, antes da primeira picaretada, antes da primeira leva do primeiro elevador. Nas minas. Nas minas. O relógio, pelas conseqüências de seus atos, não diferente de tudo e todos, possuía uma íntima relação com o metal dourado.

Dali então, no mais para frente, com o passar, o relógio, de tão, e a mente humana, de tanto, fizeram corrigirem-se as horas, coisas de subtração. Informação do relógio, subtraída 23, informava nas concomitâncias perfeitas. Subtraídos também eram os homens na fúria pelo encontro do ouro, na febre do desespero, sem comer, sem dormir, até o esgoto das forças e dali... a cova. Era a sina de muitos. Subtraídos.

Era julho e o frio mostrava-se voraz. O relógio regra nenhuma compreendia e ficava esquecido às próprias badaladas sem badalo. Atrasara-se hora inteira ou mais de hora? Estava quebrado? Ainda continuava soando a cada movimento dos ponteiros, a cada tic seguido de tac seguido de tic e assim ad eternum? Sim e era em frequência lenta o suficiente para adiantar-se frente ao tempo de sua época; mas não para seguir o bater frenético das picaretas, da terra removida e lavada, das explosões, dos velórios, dos preciprincípios precipitados, precipintados - precificados dos precipícios.
Algum dia de fato estivera o ouro do Tambucutu aqui e todos estes buracos nas rochas de sangue e amargura, extraíram algo além de lágrimas? O povo nunca notara as diferenças do tempo passado, o tempo em que se contava com o certo (glamour?). Antes, se foi, agora são histórias que já se esquecem, já há quem diga Nunca haveu. Céticos sem esperança ou, no mínimo, boa vontade. Cegos da verdade; única verdade - o ouro. Ele ainda estava lá, apenas um pouco mais fundo, esperando, sorrindo, rindo da cara dos que, e também dos que não. Passavam tão no proximamente, distância de um triz! No centro, mais fundo - repletamente.

Era tanta a esperança, que tanta suficiente para esperar, com conferência diária, que o relógio da parede da cozinha voltasse sozinho a marcar horas exatas quando se procedesse o adiantamento de meio dia cheio. E então quando mais um segundo, com mais uma cavada, com um pouco mais de esforço, com mais um pouco de paciência, com um pouco mais de trabalho, com um pouco mais de trabalho, o relógio estaria em tal estado de graça como no momento de sua lenda de criação, o relógio mais correto de toda a Grande Cidade, e o Ouro do Tambucutu também. Afloraria da terra enchendo de evidências os olhos e de riquezas as mãos e de quem quisesse, e de quem desejasse, o ouro de Tambucutu para todos. Lágrimas nos olhos ao ver as criancinhas banhando-se no metal, tudo a menos de "apenas mais um pouquinho" e apenas isso! Era uma questão de honra.

Caiu doente no primeiro de agosto de 2025. Uma tal de gripe?. Foi desextraditado no final daquele mês, ainda sem consciência. Para a família, nunca mais fora o mesmo: o ouro do Tambucutu ainda exalava por seus poros.

Ela ainda estará viva?

Fim. As crianças, brancas estonteadas, mal poderiam esperar o reinício da semana para que o mesmo conto fosse recontado, sempre mais horripilante.

Terça. 23.julho.2009

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