A Grande Cidade

A Grande Cidade é um projeto literário e este Blog um espaço para publicá-lo. Qualquer coisa mais, os textos dizem por eles mesmos e a interpretação, que não existe errônea ou acertônea, é livre: convida-se o leitor a ser autor e a criar, com sua bagagem de vida, por cima das linhas e entrelinhas do texto, das cores, do tudo e do nada.

27.9.09

O Ouro do Tambucutu - Parte II,V (2,5)

(Para ler a Parte II, clique aqui)


Eram marchas de dias inteiros. Subidas e descidas intermináveis pelas trilhas, pelas colinas, nos leitos dos rios. Apenas o primeiro seria premiado. As feições, representantes da ausência de humanidade. O homem, lobo do próprio homem. Não se deixava nada para trás, para os concorrentes, para os outros. Já se sabia, para frente nada havia, pois, por sua vez, nada fora deixado, para trás, pelos concorrentes, pelos outros. Estava cercado.

Para dormir, o olho aberto. As roupas no corpo, já postas; nunca se sabia quando. A única companheira, a espingarda. Por entre os sapos, na tocaia, dentro do mato alto da beira do mato, arrastando-me, rastejando-me, esgueirando-me, na tocaia, por entre os sapos do brejo.

Outro dia me pegara lavando as mãos. Nossa! Nunca as vi tão brancas, tal qual meu ser, no espelho, os olhos fundos. Tivera comido algo estranho na véspera e tudo bem - seria passageiro -, mas não. A vida na província era de morte.
De vida e morte.

Chegara nas minas. Mais ali era a vila. E o tempo, astutamente, voou.

Já possuía mais de centena de braços trabalhando a meus serviços na extração das entranhas da terra. Minha ferramenta de trabalho deixara de ser o bacamarte abaionetado e, tal qual as picaretas dos minerários, não podia ser outra que não o chicote - eu já não era mais eu, talvez nunca tenha sido, ou sim -. Era um chicote negro, estalado-cortante. Verdade seja dita, a ferramenta do meu trabalho não era o chicote, porque em si não me valia de nada. A minha ferramenta era minha postura, meu passar, o medo. O medo que fazia baixar repentinamente a inépcia dos braços trabalhadores. A sonolência. A indisciplina. A lengazeira. Molóides. Do chicote pegava apenas o estalo. O quase nas costas. O avanço demolidor. Os mineiros não se empenhavam suficientemente. Na busca do Ouro do Tambucutu, deveriam ser corroídas as próprias unhas, os próprios dedos, as próprias mãos, se necessários, à escavação. O meu mundo pelo Ouro do Tambucutu. Os cotocos dos braços deles pelo Ouro do Tambucutu.

Menos dos braços dela.

A vi no lampejo dum momento meio que infinito, estava entre os párias, num túnel qualquer Norte-Sul. Sua beleza era lampejo; única no vilarejo. Sua beleza era um gracejo; incendiava meu desejo. Sua beleza era o ensejo para o festejo do cortejo. Sua beleza era tão impressionante que me deixara bobo de ficar assim, sem falar nada com nada, por três dias e três noites inteiras. Lembro-me cada instante, inapagávelmente.

Ao cabo do tempo, ela nunca mais apareceu. Alucinação? Não me disse nem tchau, nem oi. Simplesmente passou, ficando retida em minhas retinas, em minha memória, para sempre? Um fantasma?

Não!
Não havia nada de mais real. Nada de mais possível. Nada! Algo me chamava. Venha. Era uma voz, brilhante. Aqui, venha. Não! Nada! Em todos os lugares, em todas as direções. Venha, aqui, saque-me, extraia-me, roube-me. Nas minas, os arredores dos campos de trabalho. Venha, pegue-me, encha-se de mim! Aqui. Na província, nas portas e janelas, dentro das casas, nas vitrines: saltando aos olhos das paredes. Venha. O meu brilho único, já batalhou tanto! Alucinante como a Grande Cidade, as minas se confundiam com o fora delas. O ouro. Novamente? Mas já não havia sido? Tudo rodando. Venha, venha, aqui! Nada. Não. Rodando e girando em espirais sem fim qual a bola do tempo.


Continua. - Parte III

domingo. 27.set.2009

7.8.09

O ouro do Tambucutu – Parte III

(Você já leu a Parte I? Não? Então clique aqui)
(Para ler a Parte II,V (2,5), clique aqui)


O ouro do Tambucutu – Parte III

Reza a lenda que apenas no instante exato em que se pôs em movimento era que o relógio marcara as horas exatas. Depois disso, nunca mais. Oh! Quão raro seria por um relógio em exata hora mundial, fuso horário do meridiano certeiro da província da Grande Cidade! E não fora obra de hábil relojoeiro, não; fora um anônimo qualquer. Só podia ter sido um imenso golpe de sorte - e dos grande. Um milagre? Reza a lenda...

Porém, como em todos os poréns, ao passo do primeiro segundo... Já se estava iniciado o adianto.
Assim também foi com o ouro do Tambucutu, lado-a-lado - ainda que opostamente: no caso do segundo, iniciado o atraso.

O relógio foi pendurado na parede da cozinha da casa, lugar de prestígio, não para qualquer utensílio. Depois dos primeiros dias, uma surpresa: as horas que pareciam ser, não eram e os habituais supostos atrasos nos compromissos, não mais - grata surpresa chegar na hora pensando que tudo perdido.

Os atrasos nunca mais se repetiram com a namorada, antes da extração da primeira pepita, com os amigos, no trabalho, no jantar de família, aos olhos do chefe, antes do apito do sino, no início da labuta, antes de receber a primeira ordem, antes da hora do ponto, na firma, nas minas, antes dos picareteiros, antes de se abrirem as minas, antes da primeira picaretada, antes da primeira leva do primeiro elevador. Nas minas. Nas minas. O relógio, pelas conseqüências de seus atos, não diferente de tudo e todos, possuía uma íntima relação com o metal dourado.

Dali então, no mais para frente, com o passar, o relógio, de tão, e a mente humana, de tanto, fizeram corrigirem-se as horas, coisas de subtração. Informação do relógio, subtraída 23, informava nas concomitâncias perfeitas. Subtraídos também eram os homens na fúria pelo encontro do ouro, na febre do desespero, sem comer, sem dormir, até o esgoto das forças e dali... a cova. Era a sina de muitos. Subtraídos.

Era julho e o frio mostrava-se voraz. O relógio regra nenhuma compreendia e ficava esquecido às próprias badaladas sem badalo. Atrasara-se hora inteira ou mais de hora? Estava quebrado? Ainda continuava soando a cada movimento dos ponteiros, a cada tic seguido de tac seguido de tic e assim ad eternum? Sim e era em frequência lenta o suficiente para adiantar-se frente ao tempo de sua época; mas não para seguir o bater frenético das picaretas, da terra removida e lavada, das explosões, dos velórios, dos preciprincípios precipitados, precipintados - precificados dos precipícios.
Algum dia de fato estivera o ouro do Tambucutu aqui e todos estes buracos nas rochas de sangue e amargura, extraíram algo além de lágrimas? O povo nunca notara as diferenças do tempo passado, o tempo em que se contava com o certo (glamour?). Antes, se foi, agora são histórias que já se esquecem, já há quem diga Nunca haveu. Céticos sem esperança ou, no mínimo, boa vontade. Cegos da verdade; única verdade - o ouro. Ele ainda estava lá, apenas um pouco mais fundo, esperando, sorrindo, rindo da cara dos que, e também dos que não. Passavam tão no proximamente, distância de um triz! No centro, mais fundo - repletamente.

Era tanta a esperança, que tanta suficiente para esperar, com conferência diária, que o relógio da parede da cozinha voltasse sozinho a marcar horas exatas quando se procedesse o adiantamento de meio dia cheio. E então quando mais um segundo, com mais uma cavada, com um pouco mais de esforço, com mais um pouco de paciência, com um pouco mais de trabalho, com um pouco mais de trabalho, o relógio estaria em tal estado de graça como no momento de sua lenda de criação, o relógio mais correto de toda a Grande Cidade, e o Ouro do Tambucutu também. Afloraria da terra enchendo de evidências os olhos e de riquezas as mãos e de quem quisesse, e de quem desejasse, o ouro de Tambucutu para todos. Lágrimas nos olhos ao ver as criancinhas banhando-se no metal, tudo a menos de "apenas mais um pouquinho" e apenas isso! Era uma questão de honra.

Caiu doente no primeiro de agosto de 2025. Uma tal de gripe?. Foi desextraditado no final daquele mês, ainda sem consciência. Para a família, nunca mais fora o mesmo: o ouro do Tambucutu ainda exalava por seus poros.

Ela ainda estará viva?

Fim. As crianças, brancas estonteadas, mal poderiam esperar o reinício da semana para que o mesmo conto fosse recontado, sempre mais horripilante.

Terça. 23.julho.2009

28.4.09

O ouro de Tambucutu - Parte II

(Você já leu a Parte I? Não? Então clique aqui)

Como disse, a história confunde-se e não é bem assim, nas linearidades. Um, depois ôtro, depois depois-de-ôtro: pode esquecer. Como pode ser? Eu sou o século XXI e é assim que será, porque foi assim que foi, nos meus recordamentos, ou não quer mais saber?

Quando em 2024, o governo da Grande Cidade iniciou oficialmente o programa de extradição voluntária de compatriotas - fui logo contemplado num dos primeiros lotes liberados - minha sorte: província de Luderitz, na antiga Namíbia, como os anciãos hão de recordar.
Era província da costa leste do Atlântico e eu tinha 23 anos. Isso éra tudo que sabia.
Embarquei de pronto, assim que do início do outono. Emoções mil, num misto de servir a humanidade e ser extraditado arbitrariamente. Era culpa dos meus braços. Braços fortes de trabalhadeiro. Era aventura e terror e ambos, nas horas certas, permaneciam encurralados em meu peito.

Saía de minha província como se da primeira vez.

A travessia era de morte. Cruzar a imensidão de água. Demoramos 3 meses, joga-daqui-joga-decolá, de enjôo e balanço na embarcação, até que Terra a vista! e então. Os primeiros dias, ou meses?, foram de aprofundamento, enraizamento, uniformamento. O homem e a terra, uma coisa só. Saímos, destacamento inteiro, das costas e nos dirigíamos, à marcha de passos largos, até onde e depois não mais.
O objetivo sempre fora o coração. Dos homens e da terra. Dos nativos e da província. Para o ataque, em baionetas!, e para o domínio, aquartelados. Estávamos no interior e avistamos as serras.

Ah! As serras de Luderitz. Acho que parte de mim nunca deixou as serras daquela província: fundávamos Conceição do Mato Dentro no ponto equinócio; éramos invencivelmente insignificantes perto da multidão de belezuras naturais. Os montes, aos montes, de monte a monte, monte da formação geológica. Extendia-se uma pradaria de topo de colinas, algumas um pouco mais altas, em afloramentos de pedregulhos. E as plantas? Sempre-vivas!, ainda que as vezes secas.
Explorávamos a região sem limites, patrulheiros que se enviavam para tantos quantos os pontos azemutais. Por rios e riachos, serra acima e serra abaixo, passa vale, passam pedras. Tudo muito antigo e calmo, mergulhadamente no céu azul.

Foi no justamente, dias antes, ou depois, quiçá ao mesmo tempo, que se soube do ouro. Há poucos quilômetros, nem semana em marcha; coisa pequena, alí pertinho, pulinho só. Tambucutu. Ninguém mais dormia. Tambucutu. Todos queriam saber, e poder, e ser o pioneiro. Tambucutu. Era ouro em pó, em pepitas, amálgama de mercúrio, ouro de sangue. Ouro. O destacamento, já não mais, alucinado. Ouro! Pelas veias, fervidas, estava lá, poucos metros. OURO! Fogo! Fogo! O acampamento em chamas! Todos correndo e matando pelo ouro do Tambucutu.

A 26 de abril de 2025, o ouro do Tambucutu e o fogo do cerrado já haviam devorado a vida, a alma e a carne de todos nós e também daqueles que mais soubessem da história. Eram outros espíritos, em criaturas horripilantemente humanas. E só havia um modo de acabar: era no cumprir da sina e no buscar do ouro. Para lá marchávamos.


Continua. - Parte III

terça. 28.abr.2009

25.3.09

Dantas explica: hino nacional brasileiro

Hino Nacional Brasileiro – Joaquim Osório Duque Estrada – Oficial em 1971
(nome da música) – (autor) – (quando passou a valer pra valer)


Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
Os barrancos do Córrego do Ipiranga ouviram
De um povo heróico o brado retumbante,
um berro barulhento de um povinho-lá
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
e a liberdade, num raio fashion,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.
deu as caras no céu do país naquele minutinho.

Se o penhor dessa igualdade
Se a garantia de igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
só conseguimos saber que era quente depois de muita treta,
Em teu seio, ó liberdade,
mantê-la, Dona Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
é um negócio que tem que dar o sangue, fia!

Ó pátria amada,
Ai! Minha quebrada,
Idolatrada,
mana,
Salve! Salve!
hey-djou.


Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
Brasil, um sonho 13, enche
De amor e de esperança à terra desce,
de amor e esperança tudo quanto é gente
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
se no seu céu, bonito-que-só e sem nuvem nenhuma,
A imagem do cruzeiro resplandece.
aparecem umas estrelinhas.
Gigante pela própria natureza,
E é grande pra caramba
És belo, és forte, impávido colosso,
é bonito, é lorde, é uma belezura,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
e o que vem por aí vai ser assim de grande também.

Terra adorada,
Terrinha a pampa,
Entre outras mil,
entre todas aquelas outras,
És tu, Brasil,
é você, Brasil,
Ó pátria amada!
a minha quebrada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Dos filhos deste mundão é a mama-áfrica,
Pátria amada,
minha quebrada,
Brasil!


Deitado eternamente em berço esplêndido,
Deitado de boa na lagoa
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
curtindo a brisa do mar e o luar
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
tá lá o brasil, uma jóia da américa,
Iluminado ao sol do novo mundo!
quarando no sol (mas não estava de noite?).
Do que a terra mais garrida,
Imagina o jardim mais cheio de flores que você já viu
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
pois é, os campos do brasil tem mais flores ainda!
"Nossos bosques tem mais vida,"
E as florestas tem mais vida
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
e, ainda por cima, nossa vida aqui tem mais mulé!

Ó pátria amada,
Ai! Minha quebrada,
Idolatrada,
mana,
Salve! Salve!
hey-djou.


Brasil, de amor eterno seja símbolo
Brasil, que seja símbolo de amor eterno
O lábaro que ostentas estrelado,
essa bandeira cheia de estrelas que tá no seu orkut
E diga o verde-louro dessa flâmula
e que o verde da bandeira diga:
- Paz no futuro e glória no passado.
"Paz pro que vem e glória pro que já foi".
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Mas, se der merda
Verás que um filho teu não foge à luta,
cê vai ver que ninguém vai dar de cuzão
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
e nem vai temer bater as botas, já que mano, é mano-mesmo.

Terra adorada,
Terrinha a pampa,
Entre outras mil,
entre todas aquelas outras,
És tu, Brasil,
é você, Brasil,
Ó pátria amada!
a minha quebrada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Dos filhos deste mundão é a mama-áfrica,
Pátria amada,
minha quebrada,
Brasil!

quarta. 25.mar.2009

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