O Ouro do Tambucutu - Parte II,V (2,5)
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Eram marchas de dias inteiros. Subidas e descidas intermináveis pelas trilhas, pelas colinas, nos leitos dos rios. Apenas o primeiro seria premiado. As feições, representantes da ausência de humanidade. O homem, lobo do próprio homem. Não se deixava nada para trás, para os concorrentes, para os outros. Já se sabia, para frente nada havia, pois, por sua vez, nada fora deixado, para trás, pelos concorrentes, pelos outros. Estava cercado.
Para dormir, o olho aberto. As roupas no corpo, já postas; nunca se sabia quando. A única companheira, a espingarda. Por entre os sapos, na tocaia, dentro do mato alto da beira do mato, arrastando-me, rastejando-me, esgueirando-me, na tocaia, por entre os sapos do brejo.
Outro dia me pegara lavando as mãos. Nossa! Nunca as vi tão brancas, tal qual meu ser, no espelho, os olhos fundos. Tivera comido algo estranho na véspera e tudo bem - seria passageiro -, mas não. A vida na província era de morte.
De vida e morte.
Chegara nas minas. Mais ali era a vila. E o tempo, astutamente, voou.
Já possuía mais de centena de braços trabalhando a meus serviços na extração das entranhas da terra. Minha ferramenta de trabalho deixara de ser o bacamarte abaionetado e, tal qual as picaretas dos minerários, não podia ser outra que não o chicote - eu já não era mais eu, talvez nunca tenha sido, ou sim -. Era um chicote negro, estalado-cortante. Verdade seja dita, a ferramenta do meu trabalho não era o chicote, porque em si não me valia de nada. A minha ferramenta era minha postura, meu passar, o medo. O medo que fazia baixar repentinamente a inépcia dos braços trabalhadores. A sonolência. A indisciplina. A lengazeira. Molóides. Do chicote pegava apenas o estalo. O quase nas costas. O avanço demolidor. Os mineiros não se empenhavam suficientemente. Na busca do Ouro do Tambucutu, deveriam ser corroídas as próprias unhas, os próprios dedos, as próprias mãos, se necessários, à escavação. O meu mundo pelo Ouro do Tambucutu. Os cotocos dos braços deles pelo Ouro do Tambucutu.
Menos dos braços dela.
A vi no lampejo dum momento meio que infinito, estava entre os párias, num túnel qualquer Norte-Sul. Sua beleza era lampejo; única no vilarejo. Sua beleza era um gracejo; incendiava meu desejo. Sua beleza era o ensejo para o festejo do cortejo. Sua beleza era tão impressionante que me deixara bobo de ficar assim, sem falar nada com nada, por três dias e três noites inteiras. Lembro-me cada instante, inapagávelmente.
Ao cabo do tempo, ela nunca mais apareceu. Alucinação? Não me disse nem tchau, nem oi. Simplesmente passou, ficando retida em minhas retinas, em minha memória, para sempre? Um fantasma?
Não!
Não havia nada de mais real. Nada de mais possível. Nada! Algo me chamava. Venha. Era uma voz, brilhante. Aqui, venha. Não! Nada! Em todos os lugares, em todas as direções. Venha, aqui, saque-me, extraia-me, roube-me. Nas minas, os arredores dos campos de trabalho. Venha, pegue-me, encha-se de mim! Aqui. Na província, nas portas e janelas, dentro das casas, nas vitrines: saltando aos olhos das paredes. Venha. O meu brilho único, já batalhou tanto! Alucinante como a Grande Cidade, as minas se confundiam com o fora delas. O ouro. Novamente? Mas já não havia sido? Tudo rodando. Venha, venha, aqui! Nada. Não. Rodando e girando em espirais sem fim qual a bola do tempo.
Continua. - Parte III
domingo. 27.set.2009